O espaço nasce na espera da outorga da Radio Comunitária Estação Quinta, que visa interagir e promover a cultura, articular novos pensamentos e entrelaçar referências de uma História engajada no mundo real e suas descrenças no homem dos tempos modernos. Uma viagem ao Rio Grande rural e seus distritos,valores e identidades e quem sabe encontrar artigos,conhecimentos e curiosidade da nossa gente.Em breve uma radio de um "povo falante e pensante".
Radio Fusion
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
Jornalismo Comunitário
Jornalismo Comunitário - O que é
afinal
Instrumento de Transformação Social
O
trabalho neste momento não é a analise dos jornais produzidos no interior –
Vila da Quinta e Povo Novo – desde 1899 com o folhetim com tinta nanquim “ O Furão” e depois com o
jornal “O Gaúcho” de 1906 editado na Vila da Quinta e o jornal
católico “Mensageiro” de 1919,
passando pelas experiências do Eco do Interior e o “Novo Tempo”, este do Povo Novo.
A análise, portanto, é com a configuração de
um instrumento de comunicação na qual esses periódicos estão inseridos – ou não
– os questionamentos de uma realidade social. È um texto baseado no trabalho de
Elaine Tavares, jornalista e professora que versa esse artigo.
Por suas características peculiares, o jornal
voltado para comunidades específicas deve ser, naturalmente, um instrumento de
transformação social, sem o que não faz sentido. Para tanto, o profissional
deve trabalhar sempre imbuído dos melhores princípios éticos, tanto no
relacionamento com a própria comunidade, como no relacionamento com as fontes
de informação. Muitas vezes é aqui que mora o perigo. Devido à proximidade, não
raro as fontes tentam manipular o jornal em proveito próprio. Outras vezes é o
jornalista que se aproveita do seu prestígio na sociedade para deturpar, com
prepotência, o que foi dito, conforme os seus interesses ou os interesses do
jornal. Ambos são caminhos errados, a serem evitados, por mais fortes que sejam
as pressões e as tentações.
Um modo de identificar-se com a comunidade, buscando permanente interação com
ela, é valorizar a cultura e os costumes locais.O jornalismo comunitário deve
estudar mais a fundo a formação histórica e social da população à qual se
dirige. Aprofundar-se nos costumes que caracterizam a cultura popular
(religiosidade, arte, vida familiar, formas de sociabilidade, educação, etc.) e aprender a respeitar e valorizar essa
cultura, reconhecendo nela um processo dinâmico e vivo, é um bom começo para
quem se inicia no jornalismo comunitário.
Para captar a alma do povo, o jornalista será sempre um observador privilegiado
e um estudioso da sociologia, aprendendo que os regionalismos integram, na sua
multiplicidade de variantes, a alma do povo brasileiro. Nas linhas finais de
sua última obra (O Povo Brasileiro – A formação e o sentido do Brasil. São
Paulo: Cia. das Letras, 1995), Darcy Ribeiro traça um perfil que todo
jornalista deve conhecer e sobre o qual deve refletir para bem cumprir o seu
ofício de comunicador:
“...apesar de feitos pela fusão de matrizes tão diferenciadas, os brasileiros
são, hoje, um dos povos mais homogêneos lingüística e culturalmente e também um
dos mais integrados socialmente da Terra. Falam a mesma língua, sem dialetos.
Não abrigam nenhum contingente reivindicativo de autonomia, nem se apegam a
nenhum passado. Estamos abertos é para o futuro”,
afirma o sociólogo depois de estudar as origens étnicas de nosso povo no índio,
no negro e no europeu, mais tarde enriquecidas com a chegada dos orientais.
Diante de tanto jornalista deslumbrado com outras culturas e por isto mesmo
alimentando complexos de inferioridade pelos traços culturais de seu país ou de
sua região, Darcy Ribeiro proclama:
“Nações há no Mundo Novo – Estados Unidos, Canadá,
Austrália – que são meros transplantes da Europa para amplos espaços além-mar.
Não apresentam novidade alguma neste mundo. São excedentes que não cabiam mais
no Velho Mundo e aqui vieram repetir a Europa, reconstituindo suas paisagens
natais para viverem com mais folga e liberdade, sentindo-se em casa. É certo
que às vezes se fazem criativos, reinventando a república e a eleição grega.
Raramente. São, a rigor, o oposto de nós”.
A vocação latina do povo brasileiro, a natural integração continental da
América do Sul, cada vez mais discutida em nossos dias, a partir do Mercosul
retomado na Administração de Luis Inácio Lula da Silva, é vislumbrada
pelo sociólogo:
“Nosso destino é nos unificarmos com todos os latino-americanos por nossa
oposição comum ao mesmo antagonista, que é a América anglo-saxônica, para
fundarmos, tal como ocorre na Comunidade Européia, a Nação
Latino-Americana sonhada por Bolívar. Hoje, somos 500 milhões, amanhã seremos 1
bilhão. Vale dizer, um contingente humano com magnitude suficiente para
encarnar a latinidade em face dos blocos chineses, eslavos, árabes e
neobritânicos na humanidade futura”.
Darcy Ribeiro deixou-nos um legado de otimismo que muitas vezes falta ao
jornalista:
“Estamos nos construindo para florescer amanhã como
uma nova civilização, mestiça e tropical, orgulhosa de si mesma. Mais alegre,
porque mais sofrida. Melhor, porque incorpora em si mais humanidades. Mais
generosa, porque aberta à convivência com todas as raças e todas as culturas e
porque assentada na mais bela e luminosa província da Terra”.
Na Comunidade, o jornalista verá refletido, como num espelho, um pouco de
cada um dos matizes que conformam a alma brasileira. Na cobertura diária, nas
reuniões com o povo, nas festas populares, nas tradições locais, o comunicador
entrará em contato com o Brasil crioulo, o Brasil caboclo, o Brasil
sertanejo, o Brasil caipira, os Brasis sulinos, de que fala o mesmo autor.
“Embora nos ensinem a ter um modo de vida refinado, civilizado e eficiente –
numa palavra, culto – não conseguimos evitar que muitos objetos e práticas que
qualificamos de populares pontilhem nosso cotidiano. Samba, frevo, maracatu,
vatapá, tutu de feijão e cuscuz, seresta, repente, folheto de cordel, congada,
reisado, bumba-meu-boi, boneca de pano, talha, mamulengo, colher de pau,
moringa, peneira, carnaval, procissão, benzimento, quebrante, simpatia, chá de
ervas etc são palavras familiares, algumas numa região, outras noutra, com
sotaque italiano, japonês, alemão ou árabe, ou ainda de modo supostamente
puro”, observa o pesquisador Antonio Augusto Arantes em
“O Que é Cultura Popular” ( São Paulo: Brasiliense, 1985).
Resgatando a cultura popular ( que tanto pode ser instrumento de conservação
como de transformação social, segundo Ferreira Gullar), nas suas várias
manifestações, o jornalismo comunitário estará contribuindo para a formação da
cidadania, para que o desconforto das pessoas contra a desigualdade social gerada
pela política neo-liberal não se transforme em mero sentimento de
constrangimento ou de vergonha, mas que se afirme como o inconformismo que leva
à luta por uma situação de justiça, de igualdade, de solidariedade.
Por isto mesmo o jornalismo comunitário não deve se voltar para grupos, porque
isto significaria oprimir ainda mais o povo através da desinformação ou do
sectarismo político-partidário. Deve, isto sim, abraçar as causas populares e
usar a força do veículo comunitário junto aos que têm poder de decisão para
forçar a solução dos problemas que afligem a comunidade, no seu dia-a-dia.
É nobre e de grande responsabilidade a tarefa do jornalismo comunitário.
A propósito de cultura popular e cidadania, o educador Paulo Freire participou,
como conferencista, da produção de um vídeo popular em apoio à campanha de
erradicação do analfabetismo promovida pelo Banco do Brasil em maio de 1994,
com o título “Educação e Mudança”. E ao falar para educadores, Paulo Freire
está falando, naturalmente, para líderes comunitários que têm o pode de influir
na opinião pública do lugar onde trabalham. Entre esses líderes estão,
naturalmente, os jornalistas comunitários, nos quais a comunidade aprende a
confiar e dos quais espera comportamento ético, sereno e responsável.
Segundo ele, a tarefa do educador é uma tarefa “gnosiológica”, isto é, que
envolve o processo do conhecimento. Para transmitir ensinamentos, ele precisa
ter clareza política, visão de mundo e método de trabalho. À medida que
transfere o conhecimento, ele “reconhece” o que conheceu durante o estudo do
objeto, capacitando-se, assim, cada vez mais, como formador.
Na comunidade, o jornalista é permanentemente convidado a integrar órgãos
colegiados, associações, grupos de debate, jurado de eventos culturais etc.
Isto ocorre porque a comunidade reconhece nele a capacidade de liderar e de
influenciar. Dotado de princípios éticos, o comunicador comunitário deve
aproveitar esse contato direto para estar sempre aprendendo com a comunidade de
modo a poder servi-la cada vez melhor, sem jamais impor os seus processos, mas
sempre discutindo, democraticamente, o melhor caminho em cada situação.
De quem lidera, a comunidade também aguarda um pouco de esperança, de estímulo,
alguém que sabe não apenas criticar mas também propor soluções. Paulo Freire
denuncia como artimanha do capitalismo neoliberal a estratégia de dizer que as
utopias morreram, que não adianta mais sonhar, que a pobreza é um determinismo
histórico, que os pobres devem se conformar com a vida que levam etc.
O formador de opinião deve enfrentar essa barreira, segundo Freire, porque é
uma barreira imposta pela ideologia das classes dominantes. O educador/formador
deve resgatar a esperança do povo num mundo melhor, fazendo-o sentir-se
sujeito da história e não mero objeto dela ou um joguete do destino. Se há
exclusão social a culpa não é dos excluídos, mas do modelo perverso de
sociedade que temos. Por isto a cidadania é um processo em permanente
construção, é um direito a ser exercido por todos, sem qualquer tipo de
exclusão por analfabetismo, cor, situação econômica, crença, convicção política
etc. Na medida que o comunicador comunitário dá as costas para os
interesses do coletivo e passa a servir a este ou aquele grupo, ele está
traindo a confiança da comunidade e retirando dela o direito à cidadania. E
ninguém pode tirar do outro o direito de sonhar e de lutar. “A existência
ultrapassa a vida; pode haver vida sem sonho, mas não há existência sem sonho”,
diz Paulo Freire esclarecendo que existir socialmente, como cidadão, é mais que
viver biologicamente como qualquer ser vivo.
O jornalista comunitário não pode se limitar a perceber que tem nas mãos o
dever social de mudar o mundo, de torná-lo melhor e mais justo. Ele precisa
assumir, na prática, esse discurso, colocando seu trabalho, seu jornal, seu
veículo, a serviço da coletividade em toda e qualquer circunstância.
Se não estiver preparado para ter uma visão crítica da história e da sociedade,
o jornalista poderá contribuir para alienar ainda mais ao invés de libertar os
excluídos. “Quando o Sujeito não se reconhece como produtor das obras e como
sujeito da história, mas toma as obras e a história como forças estranhas,
exteriores, alheias a ele e que o dominam e perseguem, temos o que Hegel
designa como alienação. Esta é a impossibilidade do sujeito histórico
identificar-se com sua obra, tomando-a como um poder separado dele, ameaçador e
estranho”, observa Marilena Chauí em O Que É Ideologia ( São Paulo:
Brasiliense, 1980).
Na comunidade, como já dito, o jornal e o jornalista devem apoiar e
incentivar as manifestações da cultura popular, como teatro, música, poesia,
arte etc. Para Antonio Arantes, “fazer qualquer modalidade de arte é construir,
com cacos e fragmentos, um espelho onde transparece, com as suas roupagens
identificadoras particulares, e concretas, o que é mais abstrato e geral num
grupo humano, ou seja, a sua organização, que é condição e modo de sua
participação na produção da sociedade”
quarta-feira, 4 de julho de 2012
Os Maias e o juizo final
Nossos dias estão contados, preparem-se para o juízo final. Conheçam o templo sagrado de uma civilização perdida e conheçam a verdade sobre a profecia maia. Os maias realmente enxergavam o passado e o presente com precisão extraordinária? A data exata do nosso fim estaria oculta em seus antigos textos? O tempo está se esgotando, a contagem regressiva começa agora. Veja o video.
terça-feira, 3 de julho de 2012
E.C Esperança - Povo Novo
E.C Esperança
A arte de ser centenário não deve ser expressa apenas
como manifestação e valorização estética ou de títulos. È antes de tudo, uma
atitude do homem em relação ao seu passado e, neste sentido, as lembranças
tornam-se eternas vigias do tempo, consistentes memórias que aguçam os sonhos
ou as frustrações do passado.
Estou falando isso porque
teria que sintetizar o quase centenário E.C Esperança (Povo Novo, 19/10/1913) e
reviver na memória dos mais velhos as utopias de uma geração e as suas inquietantes
lembranças de uma equipe de vencedores. A geração de Tatá ( Antonio Gustavo
Mendonça das Neves), Bocha ( Edes Mendonça das Neves), Biboca ( Silvio Mendonça
das Neves), Dino (Bernadino Mendonça das Neves) e o Amir, os irmãos que
brilharam nos anos 50 na escola de futebol chamada Esperança. Tatá jogou por 45
anos no time do coração e o Bocha jogou 32 anos vestindo as cores verde e
amarela. A irmã Eloá, 17 anos, era a rainha e eles eram o pilar que garantiram
o título de Campeão Gaúcho de Futebol
amador em 1953.
Um feito inédito. O
adversário, o Olaria de Novo Hamburgo, tomou de 5X4 no jogo em casa e no jogo
de volta (18/04/1954) no campo do E.C Rio Grande, tempos da Buarque de Macedo,
os alemães levaram de 5X0 na prorrogação. Foi o presente dos 40 anos do clube.
Virou magia, empolgadas bandeiras, barulhentos apitos da torcida e suas
matracas coloridas. Desfilaram pela
cidade, afinal,o mundo urbano lhes pertencia e eles viriam do interior para
serem os campeões do estado.
Em seguida, o caçula
Claudio começaria a jogar bola e os insistentes convites para jogarem futebol
nas equipes profissionais de Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre. Tornaram-se
lendas, encanto de quem os viu jogar. Tatá, Bocha e Dino já faleceram, nem
deixaram filhos, mas a herança de um futebol clássico e refinado sobrevive na
memória do velho Povo Novo e essa temporalidade memoralística tende a promover
um profundo contato entre a memória e o esquecimento entrelaçando a experiência
vivida com a possibilidade de reconstruir novos paradigmas do tempo distante.
Em 2013 serão os 100 anos
do E.C Esperança e, provavelmente, raros clubes amadores do Rio Grande do Sul ainda
estejam em plena atividade. O clube vem disputando o campeonato da Campanha com
o 1º e 2º quadro e um projeto com os meninos do Povo Novo na escolinha de
futebol com encontros as quintas-feiras. Em sua sede social fotos e troféus
acumulados no tempo e os bailes já não tem mais o brilho das velhas tradições e
dos exageros personalizados de uma elite branca, mas continua com seu status de
prestigio e, inabalavelmente, uma organização solidificada com o trabalho de
aproximadamente 30 pessoas que ajudam a reconstruir no dia-dia os sonhos de uma
geração. Uma paixão como diria a ex-presidente Teresa Pires, que em minhas
veias o sangue é e sempre será “verde e
amarelo”, ou uma extensão da nossa casa diria o Jorge Wainer das Neves.
Escola Machado de Assis - Palma. Trocaram o nome.
O lugar onde vivo, a escola que estudo.
Por que trocar o nome?
Ainda
são raros os estudos sobre a educação distrital em Rio Grande. Não obstante, no
plano institucional, um silêncio e desinteresse conveniente nos núcleos das
instituições relacionadas à educação no nosso meio. Poucas as ações afirmativas
no campo das análises e processos avaliadores e nesta lógica que movimenta o
modelo atual, pouco espaço para entender os mecanismos que forjaram no tempo as
nossas identidades culturais. Já falo nestes modos por que vão aparecer
melhorias materiais que constituíram uma melhora significante nas estruturas
escolares, mas a conversa é outra e o ano é 1927. Comemorava-se o centenário da
instituição oficial do ensino primário no Brasil e na Vila da Quinta, fechava
as portas uma das mais interessantes experiências em educação que tivemos em
Rio Grande, a Escola Agrícola da Quinta, mantida pela Ordem de São José de
Murialdo, os padres Josefinos, que durante 12 anos (1915/1927) trouxeram uma
nova concepção de educação nestes recantos de domínios oligárquicos.
O Ato nº 1053 da Intendência
Municipal de 15/10/27, criava a Escola da Palma. Está lá no “Relatório do Município do Rio Grande –
1925/1927” –Biblioteca Rio Grandense-. Foi-se 85 anos, embora o nome da Escola tenha
passado dos 70 anos com o batismo de Machado de Assis. Joaquim Maria Machado
de Assis, cronista, contista, dramaturgo, jornalista, poeta,
novelista, romancista, crítico e ensaísta, nasceu na cidade do Rio de Janeiro
em 21 de junho de 1839 e faleceu em 29/09/1908. Com o nome da Escola, era o
reconhecimento que prestávamos a um dos maiores nomes da literatura da língua
portuguesa. Pois bem. A Escola Machado de Assis, na Palma, trocou de nome.
Agora é Argemiro Dias de Lima. Será que consultaram a comunidade local? Não.
Foi trocado as pressas entre o protocolo e efetivação do novo nome não
ultrapassou 3 semanas. E fora do período letivo, em 03 de fevereiro deste ano
lá estava a singela festa de inauguração da Escola Argemiro de Lima.Talvez não seja justo entrar no mérito dos nomes, mas podemos questionar os critérios que se impõe a troca do nome de uma escola. O que se avalia? Qual o peso justificado? Seria falta de leitura histórica e interesses de grupos? Creio que nome de pessoas da localidade tenha um significado social, estabelece relações de convivências, mas estamos falando de uma Escola de 85 anos. Lá estudaram os avós, pais e filhos da maioria dos moradores atuais.
No antigo prédio de madeira, ponto de encontro dos getulistas que depois moldaram as hastes do trabalhismo, e na urna silenciosa, os descaminhos conservadores da política rio grandina. Das lembranças das tropas de gado até os anos 60 para os Frigoríficos de Pelotas ao descaso de uma estrada ordinariamente mal cuidada por gestões irresponsáveis, aos guris quebrando gelo em tamancos nas manhãs frias de inverno ou do piquete dos petiços no tempo da lonjura onde o ônibus nem existia, e lá estava o Machado de Assis. Símbolo de vida melhor, esperança de aprendizado a dezenas de filhos de agricultores. Sim. Todos eram filhos da pequena propriedade rural do nosso interior como nos tempos atuais.
Nem sei quantos deles leram um dia às relíquias machadianas, nem sei se o Argemiro sabia quem fora Machado de Assis, mas o prédio agora, por capricho dos letrados da cidade leva seu nome. Vai ficar a indignação de muitos ou justiça feita para poucos. Mas precisava trocar o nome mesmo? Não seria mais inteligente uma praça, uma biblioteca, um jardim ou uma sala anexa com as justas homenagens ao Sr. Argemiro, mas assim, em pleno fevereiro? O bom senso diz que a pressa é inimiga da perfeição.
terça-feira, 19 de junho de 2012
O espaço que ainda espera a outorga da radio comunitária, teve até meados do mês de junho - 2012 - mais de 2.550 visualizações no blog da Estação Quinta. Basicamente passou a ser um espaço de pesquisa, opção de leitura de estudantes e a comunidade em geral. Mesmo com algumas dificuldades, entre elas o acidente que tive, a meta e o objetivo foi de certa forma compensador. Manter um sitio cultural não é das tarefas mais fáceis.
Dos artigos mais acessados, estão Vila da Quinta - Síntese Histórica com 221 visualizações, seguidas da 'SIRQ - Uma instituição centenária' com139. 'A primeira aula pública na Vila da Quinta com 78 e a Igreja de Nossa Senhora das Necessidades do Povo Novo e Tropas de Gado compõe um leque das matérias mais acessadas.
Quanto as visualizações de páginas por países, o Brasil corresponde a 2.203, E.U.A 88, Alemanha 54, Portugal 48, França 34 e as demais visitações corresponde a Rússia, Eslovênia, Itália, Canada e outros países.
Por navegador, a Internet Explorer corresponde a 47%, Chrome com 28 % e o Firefox com 19%.
A origem do tráfego, basicamente vem das páginas http//www.estacaoquinta.blogspot.com e do sitio de procura http//google.com/search.
Valeu e obrigado
Obras úteis, obras necessárias ou obras eleitoreiras?
Em 2009,
o Tribunal de Contas da União (TCU) lançou uma cartilha interessante “Obras Públicas. Recomendações Básicas para
Contratação e Fiscalização de Obras de Edificações Públicas.” Receituário
simples que define toda a construção,
reforma, fabricação, recuperação ou ampliação de bem público como uma obra
pública. Essa reflexão nasce diante de um quadro atual das obras na cidade.
Notadamente há um esforço de “ações fortes” em que tendem a fugir da Lei
Eleitoral com premissas e interesses definidos. Não é uma relíquia da atual
administração, mas um compêndio de vicissitudes da politica brasileira no que
tange a grandes obras em períodos pré-eleitorais. As gestões novas reclamam
durante dois anos da herança recebida, depois surgem obras e, um pouco estranho,
quando administrações de décadas vendem as mesmas ilusões e na verdade deveriam
colher os frutos de um trabalho de anos à frente de uma Prefeitura.
Mas
falta uma grande obra entre nós. Falta uma marca. A rede no mar virou um
símbolo ultrapassado e com dezenas de frentes de obras notoriamente
eleitoreiras, percebemos que algo já devia ser feito há mais tempo. Falta um
brilho, ousadia e visão de futuro. Uma rótula na Junção não consegue dar o
sentido de sua utilidade. Quem pesquisou o fluxo diário de pessoas? Quantos
ônibus circulam no horário de pique? Qual a relação de circulação com a
possibilidade de rotas alternativas com a zona oeste? Não sabemos nada das
avaliações propostas. È uma obra pública e o cumprimento ordenado das etapas de elaboração leva à obtenção de um conjunto de informações precisas que refletirão em menor risco de prejuízos à Administração e o bem estar da população.
Há obras
paradas, Secretarias incapazes de obras mais elaboradas, mas que num passo de
mágica, tornam-se sonhos de consumo para o encanto de muitos. Falta a grande
obra porque sempre nos encolhemos em projetar a cidade do futuro, amaciados em
um passado presente de poucas perspectivas. O que sabemos da Obra da Praça
Tamandaré? Ali vai ser para sempre o terminal de toda frota urbana do
município? Pela representação histórica da velha Geribanda ainda nos anos dos
1800, será que foi feito algum detalhamento arqueológico para as obras? As
relações estabelecidas quanto à paisagem urbana central não podem ser vistos da
ótica do tráfego automotivo e é esse reducionismo que preocupa. As
transformações estéticas e urbanísticas advêm da necessidade não só do
crescimento urbano e populacional, mas compor afinidades entre o uso público,
paisagismo e o patrimônio arquitotônico de um centro antigo e histórico. Mas
ainda não pensamos assim. Retardamos nossa concepção de modernidade para, como
uma praga, nos apropriarmos da gestão pública como se fosse algo privado. Remodelar
em partes a arquitetura da cidade em nuvens densa de certo apressamento implica
em obras de qualidade duvidosa que o tempo vai cobrar. Uma praça e seus
encantos não devem ser espoliados de renovações, mas precisamos devolver aos
moradores da cidade uma arquitetura envolvente, espetáculo de um orgulho do
tempo distante.
De norte
a sul. Do Estado ao município. Ano de
eleição é ano de obras. Mas não se pode errar tanto nem subestimar o
eleitorado. A cartilha do TCU esta
disponível em www.tcu.gov.br/portal/pls/portal/docs/2058946.PDF. È
só clicar.
As tendas do Povo Novo
Os antigos caminhos e estradas para o sul do Rio
Grande foram abertos a partir dos anos de 1720 definindo traçados da circulação
e
o comércio das mulas e, com o gado veio a experiência da integração ainda no
século 18 como uma atividade que consolidou o comércio e o nascedouro da
vocação da economia rio-grandense até os tempos atuais e a formação de uma
identidade histórica. No comércio de cavalgaduras, expedições militares ou nos
passos dos viajantes ainda no século 19 desenharam rumos que a modernidade
esqueceu e surgiram outros caminhos rústicos e naturais, mas viria o saibro e o
asfalto na demanda dos novos meios de transportes à gasolina e a diesel. A
estrada Rio Grande a Pelotas terminou de ser asfaltada somente na década de 50
e quem disse que lá não estavam as primeiras “bancas” no Povo Novo.
A velha estrada não tinha acostamento e
um movimento fraco, a não ser nos fins de semana e, lembra Gilnei Martins, as
mudas de jasmim, ficavam na beira do asfalto e não viravam com o trânsito da
época. Os caminhões a gasolina como o Ford F 600 e o Chevrolet Brasil dos anos
60 cortavam o movimento diário da estrada. Mudavam o perfil quando outros tipos de movimento, quando, por
exemplo, começava o corte de arroz no
Taim e Santa Vitoria do Palmar que ainda era manual, centenas de carroças, carroções
e trabalhadores rumavam para a colheita à foice do arroz e nos trabalhos das
trilhadeiras. Hoje com a colheita mecanizada e o movimento para o Porto compõe outra
dinâmica, além do intensivo movimento em direção à praia do Cassino, mas
segundo os proprietários mais antigos, se vendia muito mais do que hoje.Não se comercializa mais galinhas, marrecos, gansos como antigamente, mas continua a tradição dos frutos da época colhidos na região como o araçá, butiás e pitangas que “os guris vendiam na beira da estrada.” Nedy Machado Borges vende desde este tempo, mas fixo na beira da estrada está a 30 anos comprando produtos da localidade e com uma lista de produtores que chega a 100. Na alta temporada, a cebola, alho, abóboras de pescoço, moranga e melancia são os produtos mais procurados pelos visitantes e turistas. Também concorda que o movimento aumentou na estrada, mas menos turistas ou caminhoneiros param para levarem os produtos locais.
A importância das ‘bancas’ vai além do que os turistas e compradores possam imaginar. È uma rede de abastecimento dos produtos locais que depende exclusivamente das vendas nas bancas, oriundos basicamente das pequenas propriedades do entorno distrital. A agricultura familiar se desenvolve e se sustenta, em muitos casos, graças ao comércio estabelecido à beira da estrada.
A duplicação da estrada tem lá seus contra tempos, mas problemático mesmo é a insistência dos órgãos responsáveis em negar o espaço público na comercialização dos produtos. Ainda é cedo, mas necessário se faz a conscientização e o entendimento social produtivo desse patrimônio à beira da estrada.
Participaram;Gilnei Martins, Agricultor
e morador do Povo Novo e Cledenir
Vergara Mendonça
E.C Santo Antonio - Povo Novo
Quando em agosto de 1960, Juvenal de
Souza Freitas Filho, Eloy Rocha Beira e Feliciano Gomes Filho nem imaginavam os
caminhos que seguiria o clube que estavam organizando. Naquele tempo era o E.C
Esperança a referência tradicional de uma
agremiação de futebol no interior ou dos famosos bailes concorridos de uma
outrora elite rural na qual encontrava no clube seu espaço de lazer e
divertimento.
A base do time e dos fundadores do
E.C Santo Antonio em 1960, veio dos trabalhadores do antigo curtume “Santo
Antonio” de Paulo Coutelle, com aproximadamente 50 funcionários mais os menores
do estaqueamento do couro e lá nascia a gênese do nome e do distintivo do
clube, um couro estampado na camiseta e na bandeira. Uma homenagem ao curtume
reconhecido aquele tempo como uma das empresas de melhor qualidade de preparo e
curtição de couros no sul do estado.
Se por um lado o Santo Antonio
recebeu apoio do Curtume, (os funcionários depois do expediente, faziam mais
duas horas na limpeza do campo) não se pode esquecer as influências e origens
no time E.C Flor do Povo, que não tinha uma organização plena , e neste sentido
reconstruíram a base do futebol com a mescla de jogadores funcionários do
antigo Curtume e de jogadores do Flor do Povo. As reuniões iniciais e até mesmo
o arrendamento do Salão do Flor do Povo, depois Sociedade Lagemann, para festas
e bailes do Santo Antonio entre 1962 a 1972. Uma pequena sede de madeira foi
construída em 1968 no local atual e o prédio em alvenaria foi inaugurado em março
de 1972.
O antigo campo de Nossa Senhora,
cercado de matos e tuneiras, pertencia a Igreja de Nossa Senhora das
Necessidades do Povo Novo e foi emprestado ao clube e mais tarde foi doado pela
Diocese de Rio Grande e o clube ‘vermelho e branco’ começava assim a trajetória
social e futebolística no distrito do Povo Novo.Foi 8 vezes campeão da cidade, 14 vezes campeão do Interior e nas décadas de 90 em diante virou uma marca registrada de sucesso. Ainda faz jantares dançantes e bingos semanais. Virou encanto e paixão de muitos torcedores. Antonio Mendes Castanheira Filho é um deles. São 48 anos dedicados ao clube. De Presidente por várias vezes a porteiro, só não foi um bom lateral direito na década de 60, brinca ele com seu jeito manso de falar. Nem lembra um fato importante no Clube. Pensa, reflete sobre o tempo passado e em suas memórias uma eterna ligação com o clube. Nem a derrubada dos matos para a construção do campo, nem os tijolos e a massa nos verões quando construía aos poucos a sede social. Fez somente uma referência de uma excursão a Novo Hamburgo a mais ou menos 30 anos passados para jogar contra o Estância Velha, campeão da região, com 2 ônibus e o Santo Antonio ganhou o jogo aos 40 minutos do 2º tempo. Mas isso foi um fato e o clube é uma paixão acima dos fatos. È uma relação de família, uma grande família. A atual Presidente é a sua esposa, Maria Marlene Borges Castanheira desde 2008. Os caminhos e o caráter de um clube passam pela harmonia e conduta da ( ver o apelido ).
Hoje o clube está em atividades no
Campeonato da Campanha, com 1º e 2º quadros, o Dep. De Veteranos, participa do
campeonato de Futebol no Cassino e no citadino de Futebol de Salão.
Artigo publicado na Revista Memória sociocultural e histórica do Povo Novo. fev/ 2012 - Ponto de Cultura Artestação
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Aos aspirantes ao doutorado
Sobre como tornar-se menos inteligente
ou
Toques para um aspirante ao doutorado
“... o sistema estúpido de educação que os representantes das autoridades responsáveis me aplicaram, tanto a mim quanto a todos, não podia fazer, de mim, grande coisa. Eu nunca fui educado pelos educadores oficiais: sempre deixei que fosse a literatura a me transformar... ”Peter Handke
Amigo Leitor
Este pode parecer um texto escrito por uma pessoa frustrada, alguém que não conseguiu galgar os “sinuosos cumes” acadêmicos e, despeitado, escreve uma porção de desaforos aos “seres superiores” do mundo encantado do chamado e decantado nível superior. De fato, não o é. Pelo contrário, faço parte deste “mundo encantado” desde bem jovem, já que ingressei num curso superior muito cedo. Na verdade, neste momento poderia estar até comemorando meu ingresso no doutorado e acreditando que “graças à minha capacidade”, hoje eu cheguei lá. Mas vamos deixar de papo-furado e começar a meter bronca.
Primeiro toque: o disfarce
Se você é do tipo inteligente, criativo, original, politizado, participativo, não deixe ninguém perceber, caso contrário você será considerado o perfil menos adequado a um doutorado. Subtraia de seu texto qualquer indício de originalidade, de arte, de inteligência. Escreva quadradinho. Tente ser o mais medíocre possível. Sei que é difícil ver um texto medíocre associado a nosso nome, mas tenha calma, é apenas um curso. Depois, com o diploma na mão você escreve o que quiser, inclusive refutando a maldita tese. Para escrever, dê uma olhada num artigo científico e copie aquele estilo. Dê preferência aos periódicos internacionais. Eles contam mais pontos.
Segundo toque: a importância dos papéis sem importância
A qualidade e a relevância de seu projeto de tese são secundários. Importante mesmo é cumprir todos os tramites burocráticos. Há processos seletivos (e são fatos relatados a mim por professores que integram programas de pós-graduação) em que você pode ser eliminado pela falta de uma foto 3x4, ou caso esqueça de colocar os documentos em uma “pasta polionda amarela”.
Terceiro toque: o analfabeto político... esqueça Brecht
Caso você seja um raro ser politizado, consciente, participativo, não pense que um currículo rico em ações na comunidade, em partidos políticos, em conselhos de saúde, de educação, rádios comunitárias, enfim, cheio de demonstrações de sua importância enquanto um zoon politikon, possa impressionar os membros da comissão de seleção. Isto não vale nada. Deixe isso pra lá. O importante mesmo é escrever artigos em revistas científicas de circulação internacional. Isso mesmo. Escrever em linguagem inacessível para todos, exceto os poucos cientistas da área (a linguagem hermética da qual nos fala Foucault), de preferência em inglês.
Outra coisa importante: se você escreveu artigos em áreas do conhecimento tão distantes quanto polinização, física quântica, marxismo e ecologia de baleias jubarte, não se mostre tão versátil. Se fez graduação numa área, mestrado em outra e pretende fazer doutorado em uma terceira, sua situação não é nada fácil. O esquema mais quadradinho possível, tipo fazer todos os níveis na mesma área, é o mais indicado, mesmo que isto te torne cada vez mais limitado. Mas afinal o que importa se você está ficando tapado? O importante é “ser doutor”.
Preocupar-se com o futuro da humanidade? Com o bem estar da comunidade, da família? Mundo melhor? Que nada! O importante mesmo é ficar o dia inteiro na frente do computador escrevendo coisas que ninguém entende para publicar em revistas que ninguém lê.
Quarto toque: um orientador fuderoso
Pessoas justas e humanas também conseguem concluir o doutorado, mas na hora de escolher um orientador, não escolha este tipo de gente. Escolha um fuderoso, um fodão. Como reconhecer um? Simples: ele terá dezenas de pessoas para (des)orientar (normalmente bem medíocres e submissas), não terá tempo pra nada (muito menos pra você) e terá uma quantidade de publicações invejável, apesar dos artigos serem de péssima qualidade (feitos às pressas), afinal, os revisores costumam ser bastante complacentes com os fodões.
Aliás, aproveite a oportunidade para aumentar sua produtividade, empurrando até mesmo aqueles artigos que você não teria coragem de publicar nem na Revista Caras. Basta colocar o seu (des)orientador como co-autor. Os revisores destas revistas “internacionais” raramente tem coragem de reprovar o artigo de um fodão. Vá por mim. E na aula de qualificação ou na defesa de tese, ter um fodão é a garantia de que você pode falar qualquer bobagem que ninguém vai ter coragem de ralhar com você. Será aprovado com distinção e louvor, independente do que apresentar.
Quinto toque: o “seu” projeto
Pode parecer brincadeira, mas o ato de pensar, no mundo acadêmico, é bastante perigoso, arriscado. Discordar é um crime. Por isso, antes de iniciar a elaboração de um projeto, fuce na internet para saber o que seu candidato a orientador escreve, como ele escreve, quais os seus principais artigos. Então... Já sacou, hein, adivinhão? Mas isso não é tudo, não basta cita-lo abundantemente. Faça contato com ele e, de preferência, elogie bastante o cara. Diga-lhe da qualidade de seus artigos e de como você se sente identificado com a “visão de mundo” dele. Aceite todas as suas sugestões de alteração que ele fizer e não só concorde, mas também elogie estas sugestões. “Puxa, eu sozinho jamais teria percebido este erro!” ou ainda “Nada melhor do que poder contar com uma pessoa tão experiente!” De modo geral, doutores são bastante vaidosos e engolem facilmente a isca.
Sexto e último toque: você não vai querer ser assim, vai?
Diz o povo que advogado é como espermatozóide: um em um milhão vira ser humano. Então parece que com tudo que é “doutor” é a mesma coisa. Por isso, cuidado. Não que eu esteja desaconselhando ninguém a seguir esta jornada. Na verdade, precisamos de outro tipo de doutores. Aliás, grande parte de meus colegas vai concordar comigo que o esquema é realmente este, mas certamente, assim como eu, muitos pesquisadores (inclusive alguns doutores) gostariam, sinceramente, que as coisas fossem diferentes. Assim, o mais importante toque, penso eu, é que ingressar num doutorado só vale a pena mesmo se você estiver convicto de que entrará e sairá um “ser humano’.
“Os livros dos especialistas não podem dançar, nem sequer podem andar despreocupadamente ou saltar ao ar livre, e naturalmente não podem subir montanhas e chegar até a essa altura onde os caminhos se fazem complicados e o ar, difícil de respirar. Sua escrita indica algo pesado e oprimido que oprime e esmaga o leitor: um ventre fundido e um corpo inclinado, uma alma que se encurva; uma habitação pequena e sem ventilação, de atmosfera carregada, de teto baixo; formalidade e mau humor, movimentos cansados, falta de liberdade... e ‘vê-se sua corcunda, pois todo especialista tem corcunda’”. Jorge Larrosa, explanando crítica de Nietzsche aos “eruditos”
P.S.1 Dedico este texto a Aloysio Nogueira, ao quadrinheiro Dante, Davi Leal, Elder Monteiro, Luis Carvalho, Marcílio Colares, Marcos José, Mônica Colares, Paulo Assunção, Victor Hugo Neves, pessoas criativas e inteligentes que não fizeram doutorado. Dedico também ao músico e instrumentista baiano Tom Zé, igualmente criativo e inteligente, apesar do doutorado.
P.S.2 – Apesar de ter participado em diversas seleções para o doutorado que se enquadram perfeitamente nestes moldes, meu ingresso no doutorado deu-se de maneira bastante distinta. O curso aceitou, sem restrições meu currículo “generalista”, indicou um orientador (que portanto, ainda não conheço) e aceitou meu projeto, apesar de não ter citado, nem elogiado, nem sequer feito contato prévio com qualquer professor do programa.
[1] Professor do Departamento de Parasitologia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Ecologia (de lagartos) pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e doutorando do Programa de Educação Científica e Tecnológica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Texto publicado pelo Jornalista Carlos Branco (A Crítica)
em sua página http://www.carlosbranco.jor.br
no espaço Pharmákon: veneno ou remédio
e pelo Jornal Amazonas em Tempo
em seu caderno de Ciência e Tecnologia
Educação Distrital - Vila da Quinta
Lilia Neves: Leituras em educação distrital
Introdução
Ainda são raros os estudos sobre a educação distrital em Rio Grande. Não obstante, no plano institucional, um silêncio e desinteresse conveniente nos núcleos das instituições relacionadas à educação no nosso meio. Poucas as ações afirmativas no campo das análises e processos avaliadores e nesta lógica que movimenta o modelo atual, pouco espaço para entender os mecanismos que forjaram no tempo as nossas identidades culturais.
O trabalho sobre a Professora Maria Iveta de Araujo tenta resgatar pela oralidade e com o apoio dos documentos, a trajetória inicial da nossa educação. È simples, uma viagem na memória dos mais velhos, um roteiro pelo mundo das letras dos alunos do tempo distante.
“Permita que rompendo contra essa velha frase do tratamento de = senhoria=
use neste momento do pronome = tu =
Não é que eu tenha esquecido as tuas lições e os teus conselhos, mas a
intuição me faz ver que esta maneira de tratar supra a amisade.
E sendo tão grande, tão forte e tão merecedoura a amisade que nós te dedicamos,
é justo que ao menos neste momento, possa o nosso pensamento despeir-se dessa convenção social, apparecendo diante de ti na nudez pia, porem sincera do nosso reconhecimento.
demonstrando-te o muito que sentimos em ver-nos privada de teus sábios e profícuos ensinamentos.
Offerecendo-te em nome de minhas amiguinhas, esta mesa de doces, aproveito o ensejo para fazer votos de que na tua nova residência tenha sempre o tratamento,
e atenção que mereces, pela maneira fidalga com que sabes cumprir o teu dever”.
Disse
Assim fora a despedida da Professora Maria Iveta de Araujo das alunas da aula do sexo feminino aqui na Vila da Quinta e lhe ofereceram uma cesta de doces e a acompanharam até a Estação Ferroviária. Uma das meninas era Eulália Paulina Soares, filha do Abdon Salies, a mais ligada à professora, sua vizinha e companheira nas horas vagas.
Partira Iveta e ficaria o esquecimento do seu legado. Teria novos alunos na cidade na Aula Mista na casa de Francisco Lima, na rua Rheingantz, número 554, com duas peças alugadas (Jornal Rio Grande – 10/12/1928) uma para sexo feminino e outra para o sexo masculino e na rua movimentada pelo trânsito dos bondes e no porão da casa, os teimosos do dia, teriam meia hora de castigo depois do término da aula. (Lirba de Lima, 90 anos, entrevista em 18/06/2003, ex – aluna)
Neste tempo, fim dos anos 20, professora Iveta morava na rua Visconde de Paranaguá, 51 e não teria mais a companhia da irmã Lilia Neves já falecida. Era uma mulher solitária. Sua sobrinha Walquiria, filha da Lilia estava sempre presente, mas morava em Pelotas e foi com os mimos da Walquiria que ficou os últimos tempos de sua vida.
Era filha de João Batista de Araujo e Maria Aguiar Cardoso, moradores de Arroio Grande. (Cópia - Biblioteca Escola Lilia Neves) Iveta nasceu em 02/09/1968 e foi professora contratada do Estado dando aula no município do Herval. (Livro de Assentamentos de escolas e professores públicos. Livro 1 -094 -1900, AHRS). Junto com a irmã Lilia Neves, (Nomeada em 08/03/1909 para o Bibiano de Almeida) foi transferida para Rio Grande ( Apostila de 10/03/1909 removida para a Vila da Quinta a seu pedido. Livro I – Registros e Títulos de Professores, 1907-1913, AHRS) e começava a lecionar aqui na Vila ficando até aproximadamente o ano de 1922.
No domingo do dia 13 de março de 1932, 10 anos após a morte da irmã Lilia Neves, na Sociedade Beneficente Portuguesa de Pelotas, às 22 horas morreria Maria Iveta de Araujo. O trem com o cortejo público chegaria às 16 horas da segunda-feira na Estação Central (Jornal E’cho do Sul, 14/03/1932, Biblioteca Rio Grandense) para o cemitério local. Não houve grandes homenagens com coroas em ramos de flores nem condolências das pequenas escolas onde trabalhou e nem proferiram discursos inesquecíveis quando morrera a professora Lilia Neves. O trem com seu corpo passaram pela Vila da Quinta e nada soubemos se aconteceu alguma manifestação. Hoje a homenagem que prestamos com seu nome desde 2009 é a sala de vídeos e de informática da Escola Estadual de Ensino Médio Lila Neves
Entrevistas Transcriadas
Entrevista: Diana Neves Ribeiro
15/07/2003
A minha avó conheceu a professora Iveta e dizia que ela era muita simpática, tanto ele como a irmã Lilia. Ela trabalhava aqui na quinta e inclusive morava aqui. A Lilia é que morava por períodos, principalmente nas férias de verão. A casa da Iveta, que minha avó contou, ficava do lado onde é o supermercado agora e a casa da Lilia era ao lado. O marido da Lilia vinha a ser parente do meu avô, o vô Celo, mas o nome era Marcelino Pereira das Neves, primo do Frutuoso Pereira das Neves que era casado com a Lilia.
Minha avó materna era Elodina Dutra, morava no km 7, n zona da Coxilha e meu avô tinha um campo ali. Ela conhecia a Iveta que era solteira, não era casada e morava aqui. Depois, dizem né, ela foi morar com o sobrinho, ela não tinha ninguém pois eles eram de Arroio Grande e por não ter companhia, morava com o sobrinho.
Ela dava aula na casa dela porque nesta época o colégio não existia. Minha vó dizia que ela tinha uma sala onde recebia os alunos para lecionar. A Iveta era uma pessoa... diferente da Lilia, era mais fechada e menos comunicativa, mas excelente pessoa. Era reservada, não gostava de sair de casa, conversava muito, mas com poucas pessoas e minha avó quando vinha a Quinta a visitava, eram amigas. A Lilia era diferente, expansiva, alegre e muito prestativa e a Iveta era calma e ficava mais em casa.
As relações coma Iveta é que quando vinham aqui para a Quinta,, naquele tempo era só a carroça, tiravam uma semana, faziam tudo o que tinham que fazer, compras, ir de trem a Rio Grande, consultar... essas coisas assim, ficavam até uma semana e minha avó muito comunicativa, gostava de conversar, fazer amizades,, ela saia e fazia as visitas nos parentes e também naquele tempo só tinha a rua principal, Coronel Salgado, e até faziam as corridas de cavalo nela, as conhecidas pencas. Todos vinham das redondezas para as “carreiras” de cavalo aqui na Quinta, era sagrado nos fins de semana e um movimento enorme. Era toda a rua e era só esta rua que existia e com poucas casas. Era essa aqui, (residência atual, Dr. Nascimento, 396), a da esquina ( antiga Ferragem Zé Gonzales), depois ali onde é o Supermercado tinha outra casa antiga, também ali onde é o Galego, a do Antonio Louro que ainda tem uns traços da casa ainda. O cinema, o Cine 15, mas tinha outra casa lá onde tem um barzinho, também era antiga. Tinha a do Chuvas que podes ver pela fotografia, elas aparecem né, são de madeiras e telhado de zinco. Ali era um hotel do seu Maneca Chuvas. Ele hospedada as pessoas que vinham de fora e ficavam no hotel. Era uma casa de madeira cumprida, mas bem forte. Depois com o tempo... o seu Maneca morreu, ficou somente o seu Luiz.
Eu acho que deveria ter a homenagem para a professora Iveta. Não a conheci, mas sempre ouvia falar bem dela e creio que possa ter sido a pioneira na educação porque depois dela é que vieram os padres (Ordem de São de São José de Murialdo – Josefinos) que até meu ai estudou na escola deles. Foi uma Escola Agrícola que ficava em frente a Estação nos terrenos da Prefeitura.
A minha mãe é de 1910, lá do Belendengue e estudou com a tia Dalva. Ela deu aula aqui na quinta também e depois foi para Rio Grande. È importante porque naquela época as filhas mulheres aprendiam o essencial; ler, escrever e fazer conta e os homens, os que tinham possibilidades e recursos dos filhos estudarem, mandavam para Rio Grande para tirar o ginásio. Nem imaginas tirar o ginásio naquele tempo era uma grande coisa. Meu tio se formou e virou Guarda Livre e era o Guarda Livre de uma Estância, fazia a contabilidade da estância, mas as mulheres... era só o essencial.
Depois que a Iveta foi embora, nunca mais soube noticias dela. Somente depois que meu pai (Décio Vignoli Neves, era escritor, nasceu na Quinta) começou a trabalhar nos livros “Vultos do Rio Grande” é que ele começou a falar na Iveta e na Lilia. Conseguiu falar com a Walquiria, a filha da Lilia Neves, porque além do parentesco, fazia versos, rimava assim, como a Walquiria e por intermédio dela, meu pai foi achando coisas da Lilia e da Iveta. Creio que meu pai não conseguiu muita coisa, e se tiver, não sei onde pode ter ficado.
A Iveta era mais reservada, mais fechada, mais.. feinha também né, coitadinha, então era aquele negócio, a Lilia era mais simpática, bem casada, mas por justiça deveria ter uma homenagem a Iveta, acho eu.
Entrevista: João Correia
08/06/2003
Eu conhecia a Dona Iveta e ela dava aula, não sei se era lá para baixo (apontava para a rua Cel. Salgado em direção a Vila Santo Antonio) ou aqui na frente que tinha uma escola que era do genro do Luiz Costa que dava aula particular. (defronte ao salão paroquial).
Conheci a Iveta sim. Ela era baixinha e boa pessoa. E todos gostavam dela e morava aqui na Quinta, mas não me lembro dessa Lilia Neves. Não fui aluno dela pois eu era mais velho. Eu comecei na Escola dos Padres e quando eles foram embora, fiquei estudando com o professor que era genro do Luiz Costa, mas não lembro o nome dele.
Olha se eu visse o retrato dela eu a reconhecia, até porque eu já tinha uns 12 anos. Vou fazer 94 anos. Passaram-se 82 anos, é um bocado de anos para a gente se lembrar, afinal sou de 1909.
Quando eu estudava, meu professor era o padre Humberto (Humberto Pagliane, responsável pela Escola Agricola da Quinta) ele era o chefe e tinha uns 3 a 4 padres, mas ele era o chefe. Ele era muito bom, meio doutor saindo por essa campanhas curando gente, meio homeopático né. Precisavam dele nesta campanha aí, ele ia atender. Depois veio um outro, usava um cavanhaque, chamado padre Eustáquio. Teve outro que morreu aqui, era o padre Inácio e era neste tempo que eu estudava na Escola.
Sou filho daqui mesmo e meu era de Santa Vitória do Palmar, João Corrêa Mirapalheta e em 1909 eu nasci aqui.
Entrevista: Jandira
03/06/2003
Eu estudei no Lilia Neves que antes era uma escola do município e foi o que aprendi na vida e fui só até a 3ª série. Hoje estou com 77 anos e sou de 1926 e quando eu estudava tinha 3 professoras. A dona Julinha que era viúva, a Julieta que era filha da dona Julinha e Dalva Nicola. Elas moravam aqui e a Dalva Nicola morava lá onde era a Sotil ( Passando a sub estação da CEEE, lado direito da Br 471), ali era a estância dela.
Depois passou a ser Lilia Neves. Antes não tinha nome não e então mudou para melhor. Vieram professores de Pelotas e essa Gilda que era de Rio Grande. Eu estava no colégio e teve festa quando botaram o nome de Lilia Neves. Não teve salgadinhos como hoje né e se batiam palmas, naquele tempo já era alegria. Teve jogos, desfile, ginástica com a professora Carmem Vaz. Tinha outras professoras além dela como a Noemi Gigante, casada com o Antunes, a Emilia Machado e a Nair Pasquer. Eram as quatro professoras que vinham de trem e elas passavam a semana aqui, iam embora no sábado e voltavam no domingo à noite, no Bagé, naquele tempo tinha o trem noturno.
Elas ficavam nas casas de famílias aqui durante a semana, mas quem pode te informar melhor são as ‘Maragatas’ pois são do meu tempo. Estudavam, jogavam e como jogavam. Nós íamos ao Povo Novo, nós brigávamos com elas lá. Era aquele jogo do saque, sabe? vôlei né e no colégio de madeira que incendiou, aliás, diziam que botaram fogo de propósito e ficava perto da casa do Sergio Carvalho (defronte ao DTG Tangara no antigo Horto). Ali foi o segundo Lilia Neves, o de madeira que o antigo de material desabou e depois construíram esse prédio de agora. ( 1961)
Entrevista: Alcidina Salies Pontes
18/06/2003
Esse poema é que minha mãe leu no último dia de aula da dona Iveta na escola lá na Quinta e guardei isto com muito carinho. Foi uma despedida PIS a professora passou a lecionar em Rio Grande e o nome da minha mãe é Eulália Paulina Salies e depois de casada ficou Farinha no sobrenome. Ela era filha de Abdom Salies e Arzelinda Poester Salies, moradores na Quinta a muitos anos. Minha mãe dizia que a dona Iveta foi a primeira professora que ficou vários anos aqui na Quinta e minha mãe nasceu em 1901.
A aula não era particular, tinha vários alunos e eu não sei onde ficava o colégio. Sei que minha mãe a esperava todos os dias na Estação e iam junto para a escola, assim contava ela. A dona Iveta morava em Rio Grande e vinha todos os dias de trem para a Vila para dar aula, mas talvez ela tenha ficado na Quinta no verão, porque ela morava com a irmã, dona Lilia Neves que veraneava lá , elas sempre moravam juntas.
Minha mãe não aceitava que a Escola da Quinta não tivesse o nome ou alguma coisa que lembra-se a dona Iveta porque a dona Lilia Neves nunca lecionou na Vila da Quinta.
Minha mãe casou com Alcides Garcia Farinha e não morava na Quinta quando casou em 1927. Veio para Rio Grande em 1918 mas meu avô continuava a ter campos aí. Eu não sou professora, trabalho na assistência social. Sempre gostei de trabalhar com crianças pobres e procuro fazer alguma coisa por elas.
Sei pouco sobre a Lilia Neves e somente aquilo que a minha mãe dizia, que as irmãs moravam juntas, a Iveta era solteira e a Lilia dava aula em Rio Grande. Para ela era a Iveta que merecia uma homenagem e não a Lilia Neves.
Assinar:
Postagens (Atom)