Radio Fusion

terça-feira, 3 de julho de 2012

E.C Esperança - Povo Novo

E.C Esperança
   A arte de ser centenário não deve ser expressa apenas como manifestação e valorização estética ou de títulos. È antes de tudo, uma atitude do homem em relação ao seu passado e, neste sentido, as lembranças tornam-se eternas vigias do tempo, consistentes memórias que aguçam os sonhos ou as frustrações do passado.
         Estou falando isso porque teria que sintetizar o quase centenário E.C Esperança (Povo Novo, 19/10/1913) e reviver na memória dos mais velhos as utopias de uma geração e as suas inquietantes lembranças de uma equipe de vencedores. A geração de Tatá ( Antonio Gustavo Mendonça das Neves), Bocha ( Edes Mendonça das Neves), Biboca ( Silvio Mendonça das Neves), Dino (Bernadino Mendonça das Neves) e o Amir, os irmãos que brilharam nos anos 50 na escola de futebol chamada Esperança. Tatá jogou por 45 anos no time do coração e o Bocha jogou 32 anos vestindo as cores verde e amarela. A irmã Eloá, 17 anos, era a rainha e eles eram o pilar que garantiram o título  de Campeão Gaúcho de Futebol amador em 1953.
       Um feito inédito. O adversário, o Olaria de Novo Hamburgo, tomou de 5X4 no jogo em casa e no jogo de volta (18/04/1954) no campo do E.C Rio Grande, tempos da Buarque de Macedo, os alemães levaram de 5X0 na prorrogação. Foi o presente dos 40 anos do clube. Virou magia, empolgadas bandeiras, barulhentos apitos da torcida e suas matracas coloridas. Desfilaram   pela cidade, afinal,o mundo urbano lhes pertencia e eles viriam do interior para serem os campeões do estado.
      Em seguida, o caçula Claudio começaria a jogar bola e os insistentes convites para jogarem futebol nas equipes profissionais de Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre. Tornaram-se lendas, encanto de quem os viu jogar. Tatá, Bocha e Dino já faleceram, nem deixaram filhos, mas a herança de um futebol clássico e refinado sobrevive na memória do velho Povo Novo e essa temporalidade memoralística tende a promover um profundo contato entre a memória e o esquecimento entrelaçando a experiência vivida com a possibilidade de reconstruir novos paradigmas do tempo distante.
     Em 2013 serão os 100 anos do E.C Esperança e, provavelmente, raros clubes amadores do Rio Grande do Sul ainda estejam em plena atividade. O clube vem disputando o campeonato da Campanha com o 1º e 2º quadro e um projeto com os meninos do Povo Novo na escolinha de futebol com encontros as quintas-feiras. Em sua sede social fotos e troféus acumulados no tempo e os bailes já não tem mais o brilho das velhas tradições e dos exageros personalizados de uma elite branca, mas continua com seu status de prestigio e, inabalavelmente, uma organização solidificada com o trabalho de aproximadamente 30 pessoas que ajudam a reconstruir no dia-dia os sonhos de uma geração. Uma paixão como diria a ex-presidente Teresa Pires, que em minhas veias o sangue  é e sempre será “verde e amarelo”, ou uma extensão da nossa casa diria o Jorge Wainer das Neves.

Escola Machado de Assis - Palma. Trocaram o nome.


O lugar onde vivo, a escola que estudo. Por que trocar o nome?

Ainda são raros os estudos sobre a educação distrital em Rio Grande. Não obstante, no plano institucional, um silêncio e desinteresse conveniente nos núcleos das instituições relacionadas à educação no nosso meio. Poucas as ações afirmativas no campo das análises e processos avaliadores e nesta lógica que movimenta o modelo atual, pouco espaço para entender os mecanismos que forjaram no tempo as nossas identidades culturais. Já falo nestes modos por que vão aparecer melhorias materiais que constituíram uma melhora significante nas estruturas escolares, mas a conversa é outra e o ano é 1927. Comemorava-se o centenário da instituição oficial do ensino primário no Brasil e na Vila da Quinta, fechava as portas uma das mais interessantes experiências em educação que tivemos em Rio Grande, a Escola Agrícola da Quinta, mantida pela Ordem de São José de Murialdo, os padres Josefinos, que durante 12 anos (1915/1927) trouxeram uma nova concepção de educação nestes recantos de domínios oligárquicos.
            O Ato nº 1053 da Intendência Municipal de 15/10/27, criava a Escola da Palma. Está lá no “Relatório do Município do Rio Grande – 1925/1927” –Biblioteca Rio Grandense-.  Foi-se 85 anos, embora o nome da Escola tenha passado dos 70 anos com o batismo de Machado de Assis. Joaquim Maria Machado de Assis, cronista, contista, dramaturgo, jornalista, poeta, novelista, romancista, crítico e ensaísta, nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 21 de junho de 1839 e faleceu em 29/09/1908. Com o nome da Escola, era o reconhecimento que prestávamos a um dos maiores nomes da literatura da língua portuguesa. Pois bem. A Escola Machado de Assis, na Palma, trocou de nome. Agora é Argemiro Dias de Lima. Será que consultaram a comunidade local? Não. Foi trocado as pressas entre o protocolo e efetivação do novo nome não ultrapassou 3 semanas. E fora do período letivo, em 03 de fevereiro deste ano lá estava a singela festa de inauguração da Escola Argemiro de Lima.
            Talvez não seja justo entrar no mérito dos nomes, mas podemos questionar os critérios que se impõe a troca do nome de uma escola. O que se avalia? Qual o peso justificado? Seria falta de leitura histórica e interesses de grupos? Creio que nome      de pessoas da localidade tenha um significado social, estabelece relações de convivências, mas estamos falando de uma Escola de 85  anos. Lá estudaram os avós, pais e filhos da maioria dos moradores atuais.
          No antigo prédio de madeira, ponto de encontro dos getulistas que depois moldaram as hastes do trabalhismo, e na urna silenciosa, os descaminhos conservadores da política rio grandina. Das lembranças das tropas de gado até  os anos 60 para os Frigoríficos de Pelotas  ao descaso de uma estrada ordinariamente mal cuidada por gestões irresponsáveis, aos guris quebrando gelo em tamancos nas manhãs frias de inverno ou do piquete dos petiços no tempo da lonjura onde o ônibus nem existia, e lá estava o Machado de Assis. Símbolo de vida melhor, esperança de aprendizado a dezenas de filhos de agricultores. Sim. Todos eram filhos da pequena propriedade rural do nosso interior como nos tempos atuais.
            Nem sei quantos deles leram um dia às relíquias machadianas, nem sei se o Argemiro sabia quem fora Machado de Assis, mas o prédio agora, por capricho dos letrados da cidade leva seu nome. Vai ficar a indignação de muitos ou justiça feita para poucos. Mas precisava trocar o nome mesmo? Não seria mais inteligente uma praça, uma biblioteca, um jardim ou uma sala anexa com as justas homenagens ao Sr. Argemiro, mas assim, em pleno fevereiro? O bom senso diz que a pressa é inimiga da perfeição.


terça-feira, 19 de junho de 2012


              O espaço que ainda espera a outorga da radio comunitária, teve até  meados do mês de junho - 2012 - mais de 2.550 visualizações no blog da Estação Quinta. Basicamente passou a ser um espaço de pesquisa, opção de leitura de estudantes e a comunidade em geral. Mesmo com algumas dificuldades, entre elas o acidente que tive, a meta e o objetivo foi de certa forma compensador. Manter um sitio cultural não é das tarefas mais fáceis.
            Dos artigos mais acessados, estão Vila da Quinta - Síntese Histórica com 221 visualizações, seguidas  da 'SIRQ - Uma instituição centenária' com139. 'A primeira aula pública na Vila da Quinta com 78 e a Igreja de Nossa Senhora das Necessidades do Povo Novo e Tropas de Gado compõe um leque das matérias mais acessadas.
           Quanto as visualizações de páginas por países, o Brasil corresponde a 2.203, E.U.A 88, Alemanha 54, Portugal 48, França 34 e as demais visitações corresponde a Rússia, Eslovênia, Itália, Canada e outros países.
          Por navegador, a Internet Explorer corresponde a 47%, Chrome com 28 % e o Firefox com 19%.
          A origem do tráfego, basicamente vem das páginas http//www.estacaoquinta.blogspot.com e do sitio de procura http//google.com/search.

    Valeu e obrigado

Obras úteis, obras necessárias ou obras eleitoreiras?


   
            Ainda vai faltar a grande obra. 

Em 2009, o Tribunal de Contas da União (TCU) lançou uma cartilha interessante “Obras Públicas. Recomendações Básicas para Contratação e Fiscalização de Obras de Edificações Públicas.” Receituário simples que define  toda a construção, reforma, fabricação, recuperação ou ampliação de bem público como uma obra pública. Essa reflexão nasce diante de um quadro atual das obras na cidade. Notadamente há um esforço de “ações fortes” em que tendem a fugir da Lei Eleitoral com premissas e interesses definidos. Não é uma relíquia da atual administração, mas um compêndio de vicissitudes da politica brasileira no que tange a grandes obras em períodos pré-eleitorais. As gestões novas reclamam durante dois anos da herança recebida, depois surgem obras e, um pouco estranho, quando administrações de décadas vendem as mesmas ilusões e na verdade deveriam colher os frutos de um trabalho de anos à frente de uma Prefeitura.
Mas falta uma grande obra entre nós. Falta uma marca. A rede no mar virou um símbolo ultrapassado e com dezenas de frentes de obras notoriamente eleitoreiras, percebemos que algo já devia ser feito há mais tempo. Falta um brilho, ousadia e visão de futuro. Uma rótula na Junção não consegue dar o sentido de sua utilidade. Quem pesquisou o fluxo diário de pessoas? Quantos ônibus circulam no horário de pique? Qual a relação de circulação com a possibilidade de rotas alternativas com a zona oeste? Não sabemos nada das avaliações propostas.
È uma obra pública e o cumprimento ordenado das etapas de elaboração  leva à obtenção de um conjunto de informações precisas que refletirão em menor risco de prejuízos à Administração e o bem estar da população.
Há obras paradas, Secretarias incapazes de obras mais elaboradas, mas que num passo de mágica, tornam-se sonhos de consumo para o encanto de muitos. Falta a grande obra porque sempre nos encolhemos em projetar a cidade do futuro, amaciados em um passado presente de poucas perspectivas. O que sabemos da Obra da Praça Tamandaré? Ali vai ser para sempre o terminal de toda frota urbana do município? Pela representação histórica da velha Geribanda ainda nos anos dos 1800, será que foi feito algum detalhamento arqueológico para as obras? As relações estabelecidas quanto à paisagem urbana central não podem ser vistos da ótica do tráfego automotivo e é esse reducionismo que preocupa. As transformações estéticas e urbanísticas advêm da necessidade não só do crescimento urbano e populacional, mas compor afinidades entre o uso público, paisagismo e o patrimônio arquitotônico de um centro antigo e histórico. Mas ainda não pensamos assim. Retardamos nossa concepção de modernidade para, como uma praga, nos apropriarmos da gestão pública como se fosse algo privado. Remodelar em partes a arquitetura da cidade em nuvens densa de certo apressamento implica em obras de qualidade duvidosa que o tempo vai cobrar. Uma praça e seus encantos não devem ser espoliados de renovações, mas precisamos devolver aos moradores da cidade uma arquitetura envolvente, espetáculo de um orgulho do tempo distante.

De norte a sul. Do Estado ao município.  Ano de eleição é ano de obras. Mas não se pode errar tanto nem subestimar o eleitorado.  A cartilha do TCU esta disponível em  www.tcu.gov.br/portal/pls/portal/docs/2058946.PDF.  È só clicar.

As tendas do Povo Novo


Os antigos caminhos e estradas para o sul do Rio Grande foram abertos a partir dos anos de 1720 definindo traçados da circulação e o comércio das mulas e, com o gado veio a experiência da integração ainda no século 18 como uma atividade que consolidou o comércio e o nascedouro da vocação da economia rio-grandense até os tempos atuais e a formação de uma identidade histórica. No comércio de cavalgaduras, expedições militares ou nos passos dos viajantes ainda no século 19 desenharam rumos que a modernidade esqueceu e surgiram outros caminhos rústicos e naturais, mas viria o saibro e o asfalto na demanda dos novos meios de transportes à gasolina e a diesel. A estrada Rio Grande a Pelotas terminou de ser asfaltada somente na década de 50 e quem disse que lá não estavam as primeiras “bancas” no Povo Novo.
A velha estrada não tinha acostamento e um movimento fraco, a não ser nos fins de semana e, lembra Gilnei Martins, as mudas de jasmim, ficavam na beira do asfalto e não viravam com o trânsito da época. Os caminhões a gasolina como o Ford F 600 e o Chevrolet Brasil dos anos 60 cortavam o movimento diário da estrada. Mudavam o perfil  quando outros tipos de movimento, quando, por exemplo,  começava o corte de arroz no Taim e Santa Vitoria do Palmar que ainda era manual, centenas de carroças, carroções e trabalhadores rumavam para a colheita à foice do arroz e nos trabalhos das trilhadeiras. Hoje com a colheita mecanizada e o movimento para o Porto compõe outra dinâmica, além do intensivo movimento em direção à praia do Cassino, mas segundo os proprietários mais antigos, se vendia muito mais do que hoje.
 Não se comercializa mais galinhas, marrecos, gansos como antigamente, mas continua a tradição dos frutos da época colhidos na região como o araçá, butiás e pitangas que “os guris vendiam na beira da estrada.” Nedy Machado Borges vende desde este tempo, mas fixo na beira da estrada está a 30 anos comprando produtos da localidade e com uma lista de produtores que chega a 100. Na alta temporada, a cebola, alho, abóboras de pescoço, moranga e melancia são os produtos mais procurados pelos visitantes e turistas. Também concorda que o movimento aumentou na estrada, mas menos turistas ou caminhoneiros param para levarem os produtos locais.
A importância das ‘bancas’ vai além do que os  turistas e compradores possam imaginar. È uma rede de abastecimento dos produtos locais que depende  exclusivamente das vendas nas bancas, oriundos  basicamente das pequenas propriedades do entorno distrital. A agricultura familiar se desenvolve e se sustenta, em muitos casos, graças ao comércio estabelecido à beira da estrada.
A duplicação da estrada tem lá seus contra tempos, mas problemático mesmo é a insistência dos órgãos responsáveis em negar  o espaço público na comercialização dos produtos. Ainda é cedo, mas necessário se faz  a conscientização e o entendimento social produtivo desse patrimônio à beira da estrada.  

Participaram;Gilnei Martins, Agricultor e morador do Povo Novo e     Cledenir Vergara Mendonça

E.C Santo Antonio - Povo Novo



            Quando em agosto de 1960, Juvenal de Souza Freitas Filho, Eloy Rocha Beira e Feliciano Gomes Filho nem imaginavam os caminhos que seguiria o clube que estavam organizando. Naquele tempo era o E.C Esperança  a referência tradicional de uma agremiação de futebol no interior ou dos famosos bailes concorridos de uma outrora elite rural na qual encontrava no clube seu espaço de lazer e divertimento.
            A base do time e dos fundadores do E.C Santo Antonio em 1960, veio dos trabalhadores do antigo curtume “Santo Antonio” de Paulo Coutelle, com aproximadamente 50 funcionários mais os menores do estaqueamento do couro e lá nascia a gênese do nome e do distintivo do clube, um couro estampado na camiseta e na bandeira. Uma homenagem ao curtume reconhecido aquele tempo como uma das empresas de melhor qualidade de preparo e curtição de couros no sul do estado.
            Se por um lado o Santo Antonio recebeu apoio do Curtume, (os funcionários depois do expediente, faziam mais duas horas na limpeza do campo) não se pode esquecer as influências e origens no time E.C Flor do Povo, que não tinha uma organização plena , e neste sentido reconstruíram a base do futebol com a mescla de jogadores funcionários do antigo Curtume e de jogadores do Flor do Povo. As reuniões iniciais e até mesmo o arrendamento do Salão do Flor do Povo, depois Sociedade Lagemann, para festas e bailes do Santo Antonio entre 1962 a 1972. Uma pequena sede de madeira foi construída em 1968  no local atual  e o prédio em alvenaria foi inaugurado em março de 1972.
            O antigo campo de Nossa Senhora, cercado de matos e tuneiras, pertencia a Igreja de Nossa Senhora das Necessidades do Povo Novo e foi emprestado ao clube e mais tarde foi doado pela Diocese de Rio Grande e o clube ‘vermelho e branco’ começava assim a trajetória social e futebolística no distrito do Povo Novo.
            Foi 8 vezes campeão da cidade, 14 vezes campeão do Interior e nas décadas de 90 em diante virou uma marca registrada de sucesso. Ainda faz jantares dançantes e bingos semanais. Virou encanto e paixão de muitos torcedores. Antonio Mendes Castanheira Filho é um deles. São 48 anos dedicados ao clube. De Presidente por várias vezes a porteiro, só não foi um bom lateral direito na década de 60, brinca ele com seu jeito manso de falar. Nem lembra um fato importante no Clube. Pensa, reflete sobre o tempo passado e em suas memórias uma eterna ligação com o clube. Nem a derrubada dos matos para a construção do campo, nem os tijolos e a massa nos verões quando construía aos poucos a sede social. Fez somente uma referência de uma excursão a Novo Hamburgo a mais ou menos 30 anos passados para jogar contra o Estância Velha, campeão da região, com 2 ônibus e o Santo Antonio ganhou o jogo aos 40 minutos do 2º tempo. Mas isso foi  um fato e o clube é uma paixão acima dos fatos. È uma relação de família, uma grande família. A atual Presidente é a sua esposa, Maria Marlene Borges Castanheira desde 2008. Os caminhos e o caráter de um clube passam pela harmonia e conduta da       ( ver o apelido ).

            Hoje o clube está em atividades no Campeonato da Campanha, com 1º e 2º quadros, o Dep. De Veteranos, participa do campeonato de Futebol no Cassino e no citadino de Futebol de Salão.

Artigo publicado na Revista Memória sociocultural e  histórica do Povo Novo. fev/ 2012 - Ponto de Cultura Artestação

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Aos aspirantes ao doutorado

Sobre como tornar-se menos inteligente
ou
Toques para um aspirante ao doutorado
Welton Oda[1]

“... o sistema estúpido de educação que os representantes das autoridades responsáveis me aplicaram, tanto a mim quanto a todos, não podia fazer, de mim, grande coisa. Eu nunca fui educado pelos educadores oficiais: sempre deixei que fosse a literatura a me transformar...   ”Peter Handke

            Amigo Leitor

                Este pode parecer um texto escrito por uma pessoa frustrada, alguém que não conseguiu galgar os “sinuosos cumes” acadêmicos e, despeitado, escreve uma porção de desaforos aos “seres superiores” do mundo encantado do chamado e decantado nível superior. De fato, não o é. Pelo contrário, faço parte deste “mundo encantado” desde bem jovem, já que ingressei num curso superior muito cedo. Na verdade, neste momento poderia estar até comemorando meu ingresso no doutorado e acreditando que “graças à minha capacidade”, hoje eu cheguei lá. Mas vamos deixar de papo-furado e começar a meter bronca.
Primeiro toque: o disfarce
Se você é do tipo inteligente, criativo, original, politizado, participativo, não deixe ninguém perceber, caso contrário você será considerado o perfil menos adequado a um doutorado. Subtraia de seu texto qualquer indício de originalidade, de arte, de inteligência. Escreva quadradinho. Tente ser o mais medíocre possível. Sei que é difícil ver um texto medíocre associado a nosso nome, mas tenha calma, é apenas um curso. Depois, com o diploma na mão você escreve o que quiser, inclusive refutando a maldita tese. Para escrever, dê uma olhada num artigo científico e copie aquele estilo. Dê preferência aos periódicos internacionais. Eles contam mais pontos.
Segundo toque: a importância dos papéis sem importância
A qualidade e a relevância de seu projeto de tese são secundários. Importante mesmo é cumprir todos os tramites burocráticos. Há processos seletivos (e são fatos relatados a mim por professores que integram programas de pós-graduação) em que você pode ser eliminado pela falta de uma foto 3x4, ou caso esqueça de colocar os documentos em uma “pasta polionda amarela”.
Terceiro toque: o analfabeto político... esqueça Brecht
                Caso você seja um raro ser politizado, consciente, participativo, não pense que um currículo rico em ações na comunidade, em partidos políticos, em conselhos de saúde, de educação, rádios comunitárias, enfim, cheio de demonstrações de sua importância enquanto um zoon politikon, possa impressionar os membros da comissão de seleção. Isto não vale nada. Deixe isso pra lá. O importante mesmo é escrever artigos em revistas científicas de circulação internacional. Isso mesmo. Escrever em linguagem inacessível para todos, exceto os poucos cientistas da área (a linguagem hermética da qual nos fala Foucault), de preferência em inglês.
Outra coisa importante: se você escreveu artigos em áreas do conhecimento tão distantes quanto polinização, física quântica, marxismo e ecologia de baleias jubarte, não se mostre tão versátil. Se fez graduação numa área, mestrado em outra e pretende fazer doutorado em uma terceira, sua situação não é nada fácil. O esquema mais quadradinho possível, tipo fazer todos os níveis na mesma área, é o mais indicado, mesmo que isto te torne cada vez mais limitado. Mas afinal o que importa se você está ficando tapado? O importante é “ser doutor”.
Preocupar-se com o futuro da humanidade? Com o bem estar da comunidade, da família? Mundo melhor? Que nada! O importante mesmo é ficar o dia inteiro na frente do computador escrevendo coisas que ninguém entende para publicar em revistas que ninguém lê.
Quarto toque: um orientador fuderoso
                Pessoas justas e humanas também conseguem concluir o doutorado, mas na hora de escolher um orientador, não escolha este tipo de gente. Escolha um fuderoso, um fodão. Como reconhecer um? Simples: ele terá dezenas de pessoas para (des)orientar (normalmente bem medíocres e submissas), não terá tempo pra nada (muito menos pra você) e terá uma quantidade de publicações invejável, apesar dos artigos serem de péssima qualidade (feitos às pressas), afinal, os revisores costumam ser bastante complacentes com os fodões.
                Aliás, aproveite a oportunidade para aumentar sua produtividade, empurrando até mesmo aqueles artigos que você não teria coragem de publicar nem na Revista Caras. Basta colocar o seu (des)orientador como co-autor. Os revisores destas revistas “internacionais” raramente tem coragem de reprovar o artigo de um fodão. Vá por mim. E na aula de qualificação ou na defesa de tese, ter um fodão é a garantia de que você pode falar qualquer bobagem que ninguém vai ter coragem de ralhar com você. Será aprovado com distinção e louvor, independente do que apresentar.
Quinto toque: o “seu” projeto
                Pode parecer brincadeira, mas o ato de pensar, no mundo acadêmico, é bastante perigoso, arriscado. Discordar é um crime. Por isso, antes de iniciar a elaboração de um projeto, fuce na internet para saber o que seu candidato a orientador escreve, como ele escreve, quais os seus principais artigos. Então... Já sacou, hein, adivinhão? Mas isso não é tudo, não basta cita-lo abundantemente. Faça contato com ele e, de preferência, elogie bastante o cara. Diga-lhe da qualidade de seus artigos e de como você se sente identificado com a “visão de mundo” dele. Aceite todas as suas sugestões de alteração que ele fizer e não só concorde, mas também elogie estas sugestões. “Puxa, eu sozinho jamais teria percebido este erro!” ou ainda “Nada melhor do que poder contar com uma pessoa tão experiente!” De modo geral, doutores são bastante vaidosos e engolem facilmente a isca.
Sexto e último toque: você não vai querer ser assim, vai?
                Diz o povo que advogado é como espermatozóide: um em um milhão vira ser humano. Então parece que com tudo que é “doutor” é a mesma coisa. Por isso, cuidado. Não que eu esteja desaconselhando ninguém a seguir esta jornada. Na verdade, precisamos de outro tipo de doutores. Aliás, grande parte de meus colegas vai concordar comigo que o esquema é realmente este, mas certamente, assim como eu, muitos pesquisadores (inclusive alguns doutores) gostariam, sinceramente, que as coisas fossem diferentes. Assim, o mais importante toque, penso eu, é que ingressar num doutorado só vale a pena mesmo se você estiver convicto de que entrará e sairá um “ser humano’.

“Os livros dos especialistas não podem dançar, nem sequer podem andar despreocupadamente ou saltar ao ar livre, e naturalmente não podem subir montanhas e chegar até a essa altura onde os caminhos se fazem complicados e o ar, difícil de respirar. Sua escrita indica algo pesado e oprimido que oprime e esmaga o leitor: um ventre fundido e um corpo inclinado, uma alma que se encurva; uma habitação pequena e sem ventilação, de atmosfera carregada, de teto baixo; formalidade e mau humor, movimentos cansados, falta de liberdade... e ‘vê-se sua corcunda, pois todo especialista tem corcunda’”. Jorge Larrosa, explanando crítica de Nietzsche aos “eruditos”

P.S.1 Dedico este texto a Aloysio Nogueira, ao quadrinheiro Dante, Davi Leal, Elder Monteiro, Luis Carvalho, Marcílio Colares, Marcos José, Mônica Colares, Paulo Assunção, Victor Hugo Neves, pessoas criativas e inteligentes que não fizeram doutorado. Dedico também ao músico e instrumentista baiano Tom Zé, igualmente criativo e inteligente, apesar do doutorado.
P.S.2 – Apesar de ter participado em diversas seleções para o doutorado que se enquadram perfeitamente nestes moldes, meu ingresso no doutorado deu-se de maneira bastante distinta. O curso aceitou, sem restrições meu currículo “generalista”, indicou um orientador (que portanto, ainda não conheço) e aceitou meu projeto, apesar de não ter citado, nem elogiado, nem sequer feito contato prévio com qualquer professor do programa.

[1] Professor do Departamento de Parasitologia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Ecologia (de lagartos) pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e doutorando do Programa de Educação Científica e Tecnológica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Texto publicado pelo Jornalista Carlos Branco (A Crítica)
no espaço Pharmákon: veneno ou remédio
e pelo Jornal Amazonas em Tempo
em seu caderno de Ciência e Tecnologia