O espaço nasce na espera da outorga da Radio Comunitária Estação Quinta, que visa interagir e promover a cultura, articular novos pensamentos e entrelaçar referências de uma História engajada no mundo real e suas descrenças no homem dos tempos modernos. Uma viagem ao Rio Grande rural e seus distritos,valores e identidades e quem sabe encontrar artigos,conhecimentos e curiosidade da nossa gente.Em breve uma radio de um "povo falante e pensante".
Radio Fusion
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Os Padres Josefinos e a Educação
Escola Agrícola Municipal da Quinta
Em 1914, a administração do município, através do Intendente Municipal, Dr. Nascimento, e o Bispo Diocesano de Pelotas, viabilizaram com a Congregação São José de Murialdo, a fundação de uma escola agrícola em Rio Grande e o local apropriado foi a Vila da Quinta. Neste sentido, o objetivo era de auxiliar na educação das crianças pobres e, ao mesmo tempo investir no desenvolvimento da agricultura na região, marcada especificamente pelo grande latifúndio ou pequenas chácaras com uma concentração predominantemente de portugueses que se estabeleciam entre o Bosque, Carreiros, Quinta, Ilha Leonidio e Quitéria. Vale ressaltar que a igreja do Rio Grande pertencia a Diocese de Pelotas.
Seria uma proposta inovadora na área educacional e, provavelmente um projeto pioneiro pedagógico e religioso sob o controle dos padres Josefinos com atuação no Brasil. A Ordem era de Turim, na Itália, e os religiosos foram transferidos da Líbia (África) do Instituto Agrícola Industrial para a Vila da Quinta. No dia 5 de janeiro de 1915, chegaram os dois primeiros padres, começando assim a missão no Rio Grande do Sul, sendo eles o padre Oreste Trombem e Gioseppe Longo. Em fevereiro chegaria o padre Umberto Pagliane, superior encarregado da Escola, e o irmão Hermenegildo Guerrini.
No dia 21 de abril de 1915 foi inaugurada a Escola Agrícola, na sede do extinto Posto Zootécnico, em uma área de 14 hectares, sendo hoje assim compreendida: à frente seria onde está o Grêmio Esportivo Nacional e o Posto de Saúde e , ao fundo a Usina da asfalto.
Cultivavam mudas de arvores frutíferas, silvestres e ornamentais, quer para o consumo, embelezamento interno ou a venda de excedentes, as hortaliças, vagens ou legumes em geral, eram cultivados para as aulas práticas dos alunos ou experimentos e manejo técnico das culturas já então estabelecidas.
Começava as aulas com 10 alunos internados e, paralelamente, era ministrada a aula municipal para os alunos do sexo masculino, na qual os menores da Vila (externos) apreendiam os elementos fundamentais da língua portuguesa, aritimétrica, e noções variadas de agricultura, perfazendo um total de 50 alunos.
Como escola católica, o ensino tinha o propósito de educação cívica e religiosa, alicerçada na moral cristã, tendo como meta a formação do caráter do estudante. O programa abrangia seis anos de estudos, divididos em dois cursos; o preparatório e o de capatazes com 3 anos cada um. Nos primeiros três anos, era teoria, português, história do Brasil, caligrafia, desenho a mão, noções de física e química. Já no curso de capatazes, ampliava em muito os conceitos até então existentes da educação no meio rural. Dividia-se em módulos como a Teoria, que seriam as matérias curriculares, ensino Profissional, como conhecimentos de semeadura, colheita, podas, enxertos e experiências químicas/orgânicas, além de controle contábil de receitas e despesas e, o último módulo seria a Zootecnia e Industria, aprendendo sobre raças de animais, coberturas, tratamento profilático, imunização, vacinas e soros. Na indústria agrícola, os alunos “capatazes” tinham aula de enotologia, preparo dos vinhos, atafonas, lacticínios, álcool e cidras e os princípios da economia rural.
A educação passava por um refino estrutural jamais imaginado na região, abriam-se novos paradigmas, reorganiza-se, de certa forma, propostas e experiências de um mundo distante de nós, burilava o bruto presente e propunham no longo horizonte, novas perspectivas de um uma nova dimensão na arte da educação. Mais do que isto, as transformações no campo religioso, propõe um novo rumo evangelizador da igreja, onde a Paróquia da Quinta, criada em 1913, abrangia o Taim, Cassino, Povo Novo e Quinta. Não eram os termos que eram novos, mas a conceitualização de propostas centradas na fé e na ação do homem em relação ao seu meio. Criaram, o Apostolado da Oração e Associação da Doutrina Cristã (catecismo) e um núcleo da Boa Imprensa, que propagava leituras e as boas publicações católicas editadas no país, sem contar um Jornal editado pelos padres locais, chamado “Mensageiro Cathólico”. Inovaram com as experiências advindas de outros locais, como “Fabrica da Matriz”, que cuidava dos bens da igreja e o “Primor da Caridade”, uma espécie de Pronto socorro físico, moral e religioso aos pobres e doentes em suas residências.
O modelo e a experiência com os Josefinos durou somente 7 anos. Em 1922 rompe-se o contrato, expurga-se os religiosos e nunca mais tivemos práticas de tal porte na arte de educar em nossa região. Poucas vezes a Igreja teve um dinamismo real e concreto nesta difícil arte de pregar o evangelho no nosso meio, mas ficaram os sonhos e projetos de uma educação inovadora entre nós. E nestes 95 anos da chegada dos padres Josefinos, a Banda Marcelino das Neves e seus instrumentos amarelos não mais se apresentam e nem mais o Grupo de Teatro Fiasco, com seus espetáculos dramáticos vão subir ao palco ou encantar os passageiros na Estação Férrea aos sábados na chegado ou partida dos trens.
Do antigo prédio de dois andares e um conglomerado de galpões e oficinas, resta somente uma parede de material esperando para tombar.
Bases de pesquisa:
Pagliane, Humberto. Escola Agrícola Municipal da Quinta. Relatório 1915/1920. Oficinas do Rio Grande.
Maier, Paulo Souza. Visão Histórica da Realidade da Comunidade de Nossa Senhora da Penha, Vila da Quinta, UFPEL, mimiografado, s/d.
Mendonça. Cledenir Vergara. Escolas Josefinos; Projetos, sonhos... que ficaram no passado. In Jornal Eco do Interior, 16/08/2005, ano 1, nº2, pg. 6
terça-feira, 5 de outubro de 2010
SIRQ – Uma instituição centenária
Sociedade Instrução e Recreio Quinta
Parte 02 – 1950/2010
Surgia o inicio da década de 1950 e com ela o movimento de futuras lideranças jovens no intuito de reerguerem a SIRQ, mas somente em 26 de junho de 1952, em Assembleia Geral, definiu-se o papel da entidade para os novos tempos. A primeira campanha seria para reerguer uma nova sede social, já que a antiga estava em ruínas e foi demolida. A nova obra oferecia uma estrutura sólida e pensada sobre todos os aspectos da construção arquitetônica: água encanada, rede de esgotos e luz elétrica. A sede foi decorada e mobiliada ao longo dos anos com móveis, louças, cristais, cortinas, mesas e cadeiras, estas vindas do Paraná.
Uma grande festa em 16 de outubro de 1954 inaugurava o atual prédio da Sociedade, abrindo o caminho para os novos tempos. Politicamente tudo se mantinha calmo, somente brigas e desafetos pessoais alteravam sua trajetória de conturbações administrativas. Obras de embelezamento, mesas e cadeiras de Gramado, a colocação do parquet, o forro em colmeia, caracterizando uma das melhores acústicas nos salões existentes, na cidade os jornais estampavam fotos das rainhas e noticias da ”Quinta” pelas mãos do escritor Décio Neves.
Pairavam recomendações em ofícios com um bem caríssimo como a eletrola e ainda havia a incerteza da utilidade de um aparelho chamado televisão e suas benesses para a coletividade social. Quando o antigo prédio de madeira do Lilia Neves incendiou, abrigou as aulas da escola até o prédio em construção ficar pronto,e teve um curso supletivo mantido com verbas do Ministério da Educação desde 1962.
Mantinha inabalavelmente, por tradição, suas exigências de conduta e respeito em seu interior, com exageros personalizados de uma sociedade em transição. Ainda são memoráveis os bailes entre 1960 e meados de 1970 que elegeram rainhas, princesas e garotas da primavera. A elite rural aos poucos se ausentou, pois já não tinha mais o prestigio e o poder de outrora. Passaram a vigorar os novos modelos sociais, nitidamente urbanos, no comando da Sociedade e mesmo com as modificações sociais em andamento, continuou sendo referência de uma classe detentora de prestígio social e poder, mostrando-se lenta para as transformações necessárias e visão de futuro, pouco contribuindo para a desmistificação de preconceitos raciais e sociais afinados ao longo de sua história. Sua influência politica continuava intocável, a Ala Feminina nos eventos sociais e carismáticos, principalmente entre 1968 e 1971, repartindo também seu espaço quando fundado o CTG Raphael Pinto Bandeira em 1968.
Com a chegada dos anos 80, mudanças radicais na estrutura social estavam acontecendo e a Sociedade arredia a elas. Pagar taxa de água e energia elétrica significava pesadelo aos tesoureiros. As crises de outros tempos batiam à porta. Recomeçavam as interrupções no funcionamento da Sociedade, parcerias simplistas, carnaval e pouca ousadia desmereceram o brilho da SIRQ.
Ficou centenária nos anos 90, adaptou-se aos novos conceitos da sociedade, virou um clube de interesses particularizados, sem o brilho de outros tempos. Aprendeu a ser mais democrática no uso de seu interior com as portas abertas à comunidade local, mas perdeu o encanto de sua história. Aos poucos desapareceram suas referências do passado para recriar um novo modelo de ação, empobrecida pelo simplismo, mas sonhos vivos na imagem dos mais novos. O presente segue sem definição conceitual com outra geração reconstruindo um novo tempo.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
SIRQ – Uma instituição centenária
Sociedade Instrução e Recreio Quinta
Parte 01- 1903/1950
A arte de ser centenária não deve ser expressa apenas como manifestação e valorização estética. Tal arte é antes de tudo uma atitude do homem em relação ao seu passado. A Sociedade e Recreio viu passar e embalou os sonhos dos homens que ajudaram a criar o 5º distrito em 1909, desmembrando-o do Povo Novo. Viveu os horrores de duas grandes guerras mundiais, sepultou sócios vitimados pela gripe espanhola de 1918 e foi testemunha de defesa das nossas revoluções internas, criando mitos e heróis de uma terra dominada pelos coronéis, mas sempre fora delicada e suave com a beleza de rainhas, princesas e misses que um dia desfilaram em sua sede. Quebrou o protocolo quando deixou os nãos sócios assistirem os jogos da Copa do Mundo de 1970 quando a Quinta só tinha um aparelho de televisão. Foi administrada pela prepotência dos velhos caudilhos políticos, mas também teve a doçura de um dia ser guiada somente por mulheres. Firmou-se assim, ao canto e desencanto de seu poder. Puniu e expurgou quem ousara transgredir seus códigos, mas agraciou e bajulou benfeitores conforme seus interesses.
Fundada em 8 de janeiro de 1903, teve suas atividades iniciais na casa do Capitão Abdon Salies e como o espaço da grande sala estava começando a ficar pequeno, Abdon dou o terreno para a construção da sede onde se encontra hoje. O primeiro salão ficou pronto em 1905, construída de madeira e as telhas eram de zinco. O estilo era colonial, amplo, as janelas em arco, e duas janelas da frente eram maiores e os vidros eram coloridos na parte superior, despontando como um dos mais belos prédios do nascente século 20 na pequena povoação à margem da linha férrea.
Até 1917, os bailes eram concorridíssimos e o espaço nobre era disputado pela elite rural. Quando ocorriam bailes de gala, havia, em horário especial, trem fretado de Rio Grande, exclusivamente para o transporte de senhoras e senhores que frequentavam a Sociedade.
A primeira crise surgiu 15 anos após sua fundação: em campo minado de atitudes prepotentes entre sócios e a diretoria, vieram à tona as primeiras deserções. Criava-se assim um salão independente, mas com o poder de barganha e arranjos políticos viria à pacificação. Concomitante a isso a gripe espanhola de 1918, que por aqui deixa suas vitimas e a 1ª Guerra Mundial, deixaram a SIRQ em compasso de espera.
Administrar a SIRQ e neutralizar diante de seus conflitos internos ao longo da sua história, nunca foi tarefa fácil, independente do sucesso e realização pessoal na vida privada. As crises vieram de longe, desde 1922 quando foram interrompidas as atividades da instituição e, repassou, em forma de arrendamento a sua sede para o Grupo dos 15”!!, período em que começava a exibição de filmes em seu interior. Com o protestos e reações de antigos sócios, se reorganizava a Sociedade em 1926 com a formação de uma nova diretoria. Renovada e ambiciosas, oferece um curso primário e aulas noturnas para os adultos com verbas próprias da entidade. Neste período surge a caneta tinteiro, folheada a ouro, oferecida pelo professor José Antonio Carneiro. Recebeu doações de livros e obras para sua biblioteca e intercedeu ao Poder Público Municipal para a criação de uma praça em frente à Estação Ferroviária, na época, terreno da antiga Escola Agrícola. A nossa primeira praça situava-se onde hoje fica o Posto de Saúde.
A Revolução de 1930 interromperia novamente as atividades sociais. A revolução que levaria Getulio Vargas ao poder, mexeria com os nossos caudilhos. Foi organizado um corpo de voluntários para combater em Rio Grande as tropas federais que resistiam ao golpe e no interior da Vila, havia homens armados para o combate. Homens como Marcelino Pereira das Neves e Augusto Nicola, formariam suas milícias para impor a ordem na cidade. A SIRQ ficaria fechada até terminarem as pressões políticas e outros atores em cena na politicagem local, novas picuinhas viriam pela frente, e persistiriam os mesmo traumas da inconsistência partidária.
Em 1934 surgiram dois blocos carnavalescos: “As Floristas” e “As Ciganas”. Nosso carnaval ganhava o brilho e a rivalidade entre os dois blocos e com eles a luxúria, beleza, competitividade e misturados a tudo isto, uma batalha em suas entranhas: a invocação politica. As Floristas nasceram na SIRQ e as Ciganas, renegadas que ousaram criar um espaço só para elas no já existente cinema, que oferecia bailes no carnaval. Cores, gritos, segredos na época de Momo, mas em cada espaço, uma pitada da politica reinante: na Sirq, o conservadorismo do PSD e no Cine !5, o populismo do PTB.
Sob a alegação da 2ª Guerra Mundial, corroborada pelo desinteresse coletivo local e pelas ações pertinentes a politica nacional com a ditadura getulista, a Sociedade permaneceu fechada de 1939 a 1948, tentando se organizar em 1949. Os resultados foram efêmeros. Desleixo e falhas administrativas deixaram a Sociedade fechada por mais de 13 anos. O brilho do enorme salão, já com seus 30 anos, virou entulho. O assoalho apresentava buracos, parte das madeiras das paredes estava despregada e havia goteiras por todos os cantos. Era a exposição do triste abandono.
Cledenir Vergara Mendonça – Esp. em História.
Fonte: Entrevistas e técnicas em História Oral (Sebastião Zeferino
Amaral, Plácido Barroco, Marcolino Brancão, José Gonzales)
Arquivo José Ferreira Junior, Carlos Salies Camargo e Décio
Neves
Livros de Atas, ano de 1928, 1952, 1985
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
A Igreja de Nossa Senhora das Necessidades
História - Povo Novo
Em um primeiro momento, se faz necessária a contextualização histórica do período na qual surge a Igreja do Povo Novo. Sua essência da ação catequizadora na região está demarcada sob dois pontos fundamentais: O povoado de pequenos lavradores portugueses surge durante a invasão espanhola no Rio Grande de São Pedro entre 1763 a 1776 e o assentamento estava localizado à margem da Estrada Real da Palma, onde os espanhóis colocaram parte dos colonos portugueses que não conseguiram retirar-se ante a invasão. Carreiros, Paulista e Mangueira foram os outros núcleos para assentarem portugueses sem condições de fuga ou por escolha, decidiram permanecer em Rio Grande. Fortes também realça essa possibilidade, afirmando “[...] que em conseqüência da invasão alguns teriam ficado em suas terras na vila do Rio Grande; outros fugiram para Santa Catarina e que a maior parte teria acompanhado o governador Elói de Madureira em seu êxodo para Viamão”
Assim sendo o núcleo da Torutama, que já existia anteriormente, a Fazenda Real na ilha da Torutama, recebeu a maior parte das famílias portuguesas, formando o Pueblo Nuevo del Torutama nas terras pertencentes a Manoel Fernandes Vieira, que se retirou durante o domínio espanhol.
Quando da restauração das terras portuguesas, o antigo proprietário retoma a sua área, originárias estas das primeiras doações de sesmarias na região, as 112 famílias de lavradores e criadores são transferidos para o Rincão d’El Rey, a área hoje compreendida pelo atual distrito. Desenhava-se assim um novo processo de firmação fundiária e social quanto ao domínio português pós- tratado de Santo Idelfonso de 1776, ao menos nesta região.
Com a mudança, no ano de 1777, “[...] mais tarde alguns destes portugueses e outras famílias foram habitar o novo lugar duas léguas distantes, e aí edificaram uma casa para celebrar missa [...] ”
Regularizou-se a posse terra a moradores que possuíam títulos e animais – eram 91 – e também os que não tinham a posse de terra durante a invasão, somando 47 proprietários , mas não fora uma ação imediata este processo de estabilização. Miséria, caos e indefinições marcaram o período de estruturação da povoado, quando somente em 1785 os proprietários regularizaram suas propriedades com doações de terras pela Coroa Portuguesa. As datas de terra prometidas (1 data=272hectares) viraram para a maioria pequenas áreas que raramente ultrapassavam os 10 hectares, verdadeiros minifúndios com assentamentos demorados e quando instalados as pressões por parte dos latifundiários, também com doações de sesmaria ((equivalente a 13.000 hectares), “fizeram-nos e, não por exceção, abandonar terras ou pagar pelas que legalmente lhe pertenciam por doação governamental. ”
Por Provisão Eclesiástica de 07/02/1785, cria-se a Capela Curada de Nossa Senhora das Necessidades do Povo Novo, tendo como capelão o Padre Manoel dos Santos Rezende, nomeado em 05/12/1785.
Os Livros de assento de Batismo, livres ou de escravos, de Casamento e Óbitos começam em 1792 e estão na Mitra Diocesana em Rio Grande. Em 1795 foi elevada a Curato dependente da Matriz do Rio Grande, a Igreja de São Pedro. Por lei da Assembléia Provincial de 06/05/1846, lei nº 35, Povo Novo é elevado a Paróquia, criando assim a Freguesia do Povo Novo. Estivera pregando no local o padre jesuíta Tiago Villarupia e o primeiro pároco nomeado foi em abril de 1847, Raimundo Tarrago .
Nesse sentido é importante citar o único padre colado, o padre Estevão de Semiglia, nomeado em 27/10/1856, sendo apresentado por decreto do governo em 25/02/1865 e confirmada canonicamente a 4/3/1865 por D. Sebastião Dias Laranjeira, que criara a Vara Eclesiástica em junho de 1863, segundo Rupert, que acompanhou a trajetória da presença de vigários encomendados na Igreja até o surgimento da República.
O desenvolvimento viria em um primeiro ciclo com a cultura do trigo. Assim ficou demarcado a opulência econômica no final da década de 1780 com o plantio de 7.472 hectares de trigo no Povo Novo a sua retração da cultura nos campos a partir das primeiras décadas dos anos oitocentos. Aos poucos a produção de bois para as charqueadas em Pelotas e culturas de subsistência voltadas para o abastecimento da Vila do Rio Grande, identificavam igualmente o modelo produtivo característico desenvolvido pela Província desaparecendo a produção em larga escala da cultura. Assim desenvolvia a Freguesia. Negros cativos em uma população equivalente a 40% do universo de moradores, açorianos e seus descendentes e os grandes proprietários de terras, formariam um mosaico cultural e social muito mais próximos da exuberante Pelotas do que Rio Grande.
Em 12/12/1913, a capela deixou de ser a sede da Paróquia, sendo esta transferida pelo Bispo de Pelotas para a Igreja de Nossa Senhora da Penha, no nascente distrito de Julio de Castilhos, hoje Vila da Quinta.
Quanto às reformas solicitadas, e isto não significa inserções arquitetônica no mesmo período, cita-se na ata da Câmara Municipal do Rio Grande em 13/02/1856, que a Igreja precisava ser reformada, pois o “telhado estava arriado, imagens defeituosas e precisando de 5 banquetas completas para os 5 altares” e a reclamação que os 6 contos de réis decretados pela Assembléia Provincial ainda não havia chegado. Já no ano de 1878, forma-se uma comissão na povoação para novos melhoramentos na Igreja das Necessidades. È bem provável que pequenas obras tenham sido feitas, o que no trabalho desenvolvido não é pesquisado, no começo do século XX, mas efetivamente o que se tem de noticias é do ano de 1958 quando ocorre o tombamento lateral e a cobertura, menos a fachada, sendo reconstruída a Igreja, obedecendo, segundo entrevistas com antigos moradores, o mesmo estilo e tipificação arquitetônica.
Bibliografia
Manoel H. de Couto e Rey - Carta Coreográfica que compreende a Barra de Rio Grande de S. Pedro e terrenos que medeiam entre a Freguesia do Estreito, o arroio de Taim e Campos de Piratini. Cópia - Centro de Documentação Histórica – FURG.
QUEIROZ. Maria Bertulinne. A Vila do Rio Grande de São Pedro 1737 -1822. Rio Grande: FURG, 1987
FORTES. João Borges. Os casais açorianos: presença lusa na formação do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Martins Livreiro, 3ª edição, 1999. P. 98
DIAS LOPES. Pe. Acediago Vicente Zeferino. Notas sobre a história eclesiástica no Rio Grande do Sul – 1737-1891- p. 97/98. Arquivo Cúria Metropolitana – Porto Alegre
Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul – Registro de Sesmarias - Livro 1/2/3
COPSTEIN. Raphael. O Trigo no continente de São Pedro. IN: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, nº 132, Porto Alegre, 1998. p. 29 a 92
RUPERT. Arlindo. História da Igreja no Rio Grande do Sul. EST Editora. Vol.III – Curatos do tempo colonial que se tornaram paróquias, p. 69/70
COPSTEIN. Raphael. O Trigo no continente de São Pedro. IN: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, nº 132, Porto Alegre, 1998. p. 62
Mappa de Listas de Família: 1.328 livres, 19 libertos, 719 escravos – Ano de 1858 – Igreja Nossa Senhora das Necessidades – AHGRS.
Primeiro Lustro da Diocese de Pelotas. 1911- 1916. Cúria Diocessana - Pelotas
Raizes Negras do Jazz - Povo Novo
O blues chegou com o escravo na América inglesa. Já o atabaque rugia seus sons africanos em rituais religiosos dos candomblés com o negro cativo no centro e nordeste do Brasil. Não tínhamos aqui uma expressão vocal definida, somente lamentos, desabafos e dores entranhadas nos longos anos de opressão.
*Parte pesquisa sobre o negro rural em Rio Grande
Nossos sons eram diferentes, cadenciados em corpos marcados a rodear no mundo oculto da senzala. O negro era uma peça de trabalho, ferramenta cara para seus senhores. Mercadoria que vendia ou comprava-se, moeda de troca, garantias hipotecárias e bens “moventes” inventariados que chegavam a 25% do valor patrimonial da família. Nos batismo de filhos de escravos, até o Livro de Assentos da Igreja era separado. Não assinalavam sua origem e quase nunca constava o nome do pai, mas indispensável o registro do dono da escrava. Criavam-se, assim, ao gosto dos cantares tristes e do sonho distante da liberdade. O Código de Posturas de qualquer Freguesia aqui em nossa volta impunha artigos e capítulos nos quais quase tudo lhes era proibido. A dança e a música eram vigiadas, pois poderiam conter elementos secretos de pretensas sublevações, e este era o medo do mundo senhorial.
Em 1850, o tráfico foi proibido e, no Povo Novo, havia mais de mil negros cativos espalhados pelos campos da Freguesia. Nas festas religiosas, ali, sim, era consentido o uso do banjo (banjor africano), a rabeca ou rústica gaita de boca. Em 1858, a Freguesia do Povo Novo, criado por ato de 1846, tinha uma população de 2.066 pessoas, sendo 1328 livres, 19 libertos e 719 negros cativos.
Nas festas religiosas, o desfile da sociedade local. Misturados na grande praça, escravos, negros alforriados, peões em trânsito ou descendentes miseráveis de índios que formatariam caracteres da nossa hereditariedade. Não era uma ostentação de luxo como nos grandes centros, mas nestes dias festivos, era uma das poucas oportunidades em que se podia mostrar a riqueza medida pela aparência e não pela quantidade de terras, bois ou escravos. A abolição seria, enfim, decretada, mas ficava viva a herança dos sons afros e da miscigenação musical de influência europeia. Acredito que ainda não estudamos em Rio Grande a música negra desde a virada dos anos de 1900 e nem a influência do jazz nos conjuntos ou sobre os músicos advindos deste período. Quando conheci o Ivaci (Ivaci Pereira Cardoso) – ele era de 1923 – a arte e a música embalaram nossa longa e única tarde de conversa há seis anos passados. Músico do Povo Novo, há mais de ano que ele não tinha vontade ou condições físicas para entoar seus encantos musicais. Ofereceu-me antigas composições que ele, seus irmãos, sobrinhos e cunhado tocavam nos bailes. Achava péssimas as construções musicais atuais – São fracas? Perguntei a ele. Fez-se silêncio na sala. Com voz tênue, macia e cansada, como a procurar a medida certa para a resposta, “são fracos os executantes”. Nem tive a ousadia de falar em tecnologia digital ou instrumentos computadorizados. Ele já tinha criado seu primeiro grupo, o Choro Futurista, quando foi estudar música com Mario Constantino, mestre no Colégio Salesiano em meados dos anos 50. Ivacir tinha, então, 30 anos, casado, pai de três filhos e vivia da plantação de cebola no Banhado Silveira.
Outra paixão era o futebol. Fundou o Clube União do Arraial que manteve em atividades por 23 anos. Mas é da música que ele gostava de falar. Dizia que vinha do sangue, do sangue negro dos seus ancestrais. Dos avôs, materno e paterno, só um deles não fora escravo no Povo Novo. Disse-me que nunca faltou espaço por ser negro nos clubes em que animava as festas, nem no Esperança do Povo Novo ou na Sociedade e Instrução da Quinta, ambos representativos da outrora elite rural e de cunho “reservado” quanto à presença de negros em seu interior. Nunca notou preconceitos nas turnês musicais ou futebolísticas, mas coube ao nosso mestre a fundação da Sociedade “Disfarce e Olhe” somente para negros no Povo Novo ou o União ser formado essencialmente por jogadores negros. Otacílio Gambetá, músico da “Jazz Band Grupo dos 15!”, com sua Sociedade, também só para negros na Vila da Quinta, tornou célebre, no baile de inauguração, o discurso quando disse: “… essa sociedade não tem estatuto, cada membro é um estatuto vivo”. Nesses bailes de negros, os brancos não dançavam.
Ivaci sempre foi o idealizador do Grupo. Primeiro foi o Choro Futurista, depois passou para o Grupo Jazz Brasília, em homenagem à inauguração da nova capital federal e, depois, o Jazz Brasil com o tricampeonato de futebol no México e último nome, já nos anos 80, a Banda Brasil.
O repertório, mas sofisticado, que tinha uma composição mais harmônica em relação às animações de bailes de carnavais ou participações em festas religiosas, variavam entre marchas, valsas, boleros, tangos e maxixe. O maxixe funde-se ao ritmo da dança afro-cubana, habanera, e o sincopado da música afro-brasileira. Não falta a polca, o passe-dob ou o fox-trot.
Com a morte do Ivaci, nossa expressão musical ou o que havia de melhor dos ritmos da cultura negra musical no interior, agora silenciam. Ficou um vazio, murmúrios da nossa inconsistência em não saber, ainda, preservar nossa memória. E as partituras musicais, valem pouco, seu Ivaci? “Nem mil réis seu moço”. Foi assim que nos despedimos no único encontro que tivemos e o sax da parede, está à venda ou já foi vendido pelos herdeiros.
*Historiador – Associação Cultural Estação Quinta
Nomes e Lugares do interior
Nomes e Lugares
Uma pequena localidade constitui uma unidade de espaço e tempo, um espaço identificado com suas silhuetas e planos inacabados. Espaço de memória, construção do olhar sobre uma paisagem que pouco nos pertence.
Vila da Quinta é um nome interessante. Temos a sensação que ela homenageia um dia da semana, mas não é. È uma Quinta mais simbólica que se arrastou no tempo e no nosso caso, vem das origens lusas das quintas, local de plantio de frutíferas e verduras. Em 1882 com a chegada do trem, a Estação adotou o nome Quinta, do velho quartel militar da Quinta do Cap. Mor desde os anos de 1778, no inicio do caminho que segue para o Taim. Em 1909 com o distrito desmembrado do Povo Novo, mudaram para Julio de Castilhos. Não pegou. Nós gostamos do nome Quinta, e agora? O que preocupa é o nome Vila. Parece que nascemos para ser um vilarejo, mas não faz mal. O Povo Novo é mais antigo e não tem esse complexo. Ele nasceu Pueblo Nuevo del Torotama durante a invasão espanhola em 1763 e somente em 1776 com a retomada dos portugueses passa a ser o nosso Povo Novo. È um nome bonito e por mais que seja para lá de bicentenário, não ficou velho com o passar do tempo. Em seu entorno, múltiplos lugares, referências de um passado de ocupação ainda no século 19. Uns se perderam no tempo, outros resistem, mesmo que nos mapas atuais eles não apareçam. Tem um lugar incomum chamado Alegrias, sentimento nobre em tempo de carrancas mal humoradas. Já o Capão Seco é uma nesga de terra circundada pelo constante encharco dos banhados. Pode ser até incoerência, mas faz parte das relações geográficas estabelecidas a dezenas de anos na qual as pessoas simplificavam o espaço de conviver e o de reproduzir.
Tudo bem, nada contra o Barro Vermelho, pior é se inventassem outra cor, embora vermelho, vermelhão mesmo não encontrei por lá. Gosto dos nossos nomes porque eles são autênticos. Quase todos passaram dos 100 anos e não herdaram aqueles sufixos ordinários tipo de lugares que terminam em “lândia”. Já imaginaram a Palma ser chamada de Palmalândia? Ridículo. Deixa assim. A estrada da Palma, antigo caminho ao sul já existe a 200 anos e soa bonito, um alegre sonoro dissílabo em vogal aberta.
Interessante e desconhecidos são os nomes próprio que adotamos. As mulheres tiveram pouco espaço e só a Quitéria foi homenageada. Ela existiu lá pelos anos de oitocentos. Nomes de homens é a maioria e nada de estrangeiro. Nós temos a ilha que foi do Leonidio. Belo sujeito esse. A ilha que foi do pai dele, o Cap. Machadinho, ficou para ele. Quem pode é assim. Outro lugar é o Corredor dos Pinheiros, que todos chamam dos Pinheiros. Não. Não é a arvore que é agraciada, mas o Joca Pinheiro, político e delegado lá nas primeiras décadas de 1900. Domingos Petroline é outro local masculino assim como a estrada do Guamaz. Será que existe a família deste povoador no Povo Novo?
È claro que não faltaria os aspectos também característicos da geografia nos nomes. O Banhado do Silveira. Tudo bem; A terra era dele, ganhou um pedaço de sesmaria e pronto. Ficou seu nome para sempre. Nomes indígenas foram escassos. O Taim é um caso, que significa “terra de um dente” em mybia guarani e os vestígios arqueológicos é o que não faltam em nossa região, com datações variáveis entre 300 a 800 anos passados. Nomes de santos nunca foi o nosso forte e outros nomes surgiram sem a autorização do homenageado: Lagoa do Jacaré. Nome pomposo, forte e não é uma lagoinha qualquer.
Nomes simples, do nosso jeito e da velha estirpe portuguesa. Nunca foram estudados e são lembranças dos mais antigos e que se popularizaram através dos tempos. Ainda resistem em poucos mapas e outros citados nos documentos em registros cartoriais dos campos ou inventários do século passado. Muitos são memórias vivas, referências dos nossos lugares e identidades de um povo, mesmo que nem seja percebido no cotidiano das pessoas.
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