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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A Villa de Santa Isabel dos Canudos - 1882 -1893

A dignidade de um povo – 1882-1893
                O Vilamento

Este artigo busca referenciar os 11 anos de emancipação politica de Santa Isabel do Sul e, de certa forma, sintetizá-la no plano histórico do Brasil Meridional, analisando a sua importância na construção histórica da povoação à margem do São Gonçalo. Em meados do século 19, as charqueadas em pleno desenvolvimento, criação pastoril abundante e o escravismo como mola propulsora do desenvolvimento econômico e social, fazendo florescer nos centros urbanos e ruralizados, as novas elites agrárias de pensamento liberal. Neste sentido, reconstituir os aspectos sociais de Santa Isabel, é construir uma nova visão que abarca desde os seus valores econômicos, sua dinâmica social, produtivas e culturais. Já as limitações documentais impuseram constantes avaliações e seguir pistas da tradição oral, fruto, portanto da cultura espontânea das pessoas que moram ou moraram em Santa Isabel, foi, às vezes, caminho indispensável. Foram horas de conversas, anotações e a percepção de um orgulho latente de todos eles. Assim a velha Santa Isabel ressurge, reconstituindo o passado e projetando um futuro melhor com um relacionamento responsável entre a cidade mãe, Arroio Grande, e o atual distrito.
Com o aldeamento formado a partir dos anos de 1850 calcado principalmente em dois pilares básicos: a charqueada e a escravidão, Santa Isabel vislumbrava na sua estrutura portuária, uma potencialidade básica de desenvolvimento e exportação de suas riquezas. Mais dos isto, era porta de entrada e saídas de produtos, portal do contrabando institucionalizado do Prata, direcionando murmúrios e fervilhando ideias e sopros de ventos liberais, que tinham suas origens desde os tempos dos farroupilhas com seu Posto Fiscal em frente a Vila. Criava-se uma Vila, nascia uma utopia nas áreas “doadas pelo Cap. José Correia Mirapalheta em terrenos de sua propriedade” em 1859. Nesta época, em 1858, a população de Santa Isabel, ainda distrito do Arroio Grande, tinha 860 homens livres, 44 libertos e 1.144 escravos. Mas nem tudo foi silêncio como se imagina. Houve insurreições, resistência e sublevações ao trabalho forçado e fugas do mundo senhorial na Vila ou nas suas extensas fazendas, desde a Formosa até a Pedra Só. Fatos isolados e ainda pouco estudados como os atos de protestos a servidão silenciosa é que lentamente vai se analisando, contidos estes nas antigas experiências vividas no período da escravatura na região entre o Chasqueiro e o Piratini.
Murmúrios na costa portuária, movimentos da Marinha Mercante em defesa de Jaguarão diante da possibilidade da invasão dos blancos de Aguirre, os vapores e suas paragens obrigatórias antes de singrarem a Mirim, e por esses lados, não há uma repetição monótona do cotidiano. Circulam ideias, jornais, folhetos subversivos, negros alforriados, miseráveis, pencas concorridíssimas e bailes das oligarquias charqueiras. Ao mesmo tempo crescem as queixas contra o descaso da administração do Arroio Grande e a criação de um novo município se torna inquestionável. Por lei Provincial nº 1.368, em 09/05/1882, é criado o município de Santa Isabel dos Canudos.
Mas duraram pouco os festejos e o orgulho isabelense. Arroio Grande não se contentaria em perder em média 30 % de suas rendas e 60 % de seu território. Era um inimigo que agia nas trincheiras e interesses corporativos, mas enquanto o embate final não chegava o novo município se estruturava nos segmentos da saúde, educação, acessos e rendas municipais, oriundas dos impostos taxados das exportações de gado, das olarias, caieiras, casas de comércios e arrematações dos passos dos Canudos, Orqueta e Maria Gomes. Quando as águas começam a ameaçar a Vila em 1889, idealizam uma represa para proteger o povoado, sugerem a uma espécie de imposto predial, cobram tributos das charqueadas de Pelotas que tendiam a monopolizar o comércio. Santa Isabel tinha pressa e os entraves burocráticos continuavam atrelados ao Arroio Grande que insistia em revogar a lei da Assembleia que criava o município.

O desvilamento

Novos e fortes rumores circulavam na povoação. Arroio Grande não queria reanexar Santa Isabel, mas sim, o desejo de retomar uma parte territorial que abrangia a região das pedreiras de calcário e as enormes quantidades de pedras, onde mais tarde seria a Matarazzo. Em nada valeria o esforço e as contínuas queixas à Presidência da Província. Em 1890, é anexada a área em litígio. Estava a partir daquele momento decretada a falência do município. Arrastou-se por mais dois anos vivendo de rendas ínfimas e soterradas em convulsões sociais. As águas já não são mais ordeiras dos tempos passados agora invadem, assustam e já não duram de 3 a 4 dias como antes, mas semanas de preocupações e improdutividade no coração administrativo do município. Sucumbe definitivamente em 16/01/1893.
Voltava a ser distrito e seus antigos prédios da administração ficaram vazios. Não haveria mais decisões importantes a serem tomadas, nem debates ou projetos de desenvolvimento da localidade e, seriam todos, do Piratini ao Chasqueiro, submissos a vontade do Arroio Grande. Pouco importava a miséria do empobrecido municipio e suas baixas arrecadações nos últimos anos, pois a ira voltava-se sempre para o Arroio Grande. Listas de baixos assinados, brigas, violência tomavam as ruas e lugares públicos. Manifestações de orgulho e inconformidade pela anexação contagiavam políticos, os poucos que ainda ficaram na Vila e moradores mais exaltados. Mas tudo era silêncio em Arroio Grande e pela lógica, nem fora dele a obra de engenharia da reanexação, mas  sim do governo republicano que, no processo de reorganização territorial e administrativo do Estado, logo após instaurada a República, criava, restaurava ou extinguia municípios no Rio Grande do Sul, onde Santa Isabel, caracterizada pela sua rebeldia dos tempos passados, punia- se pela lógica financeira e interesses partidarizados.
A Revolução Federalista (1893-1895) aqui na região contribuiu em muito para a edificação do caos em Santa Isabel pós-supressão do município. Incapacitados de reprimir as manifestações revolucionárias, as forças policiais são presas fáceis e instrumentos de ações ineficazes. Invasões nos trilhos da Estação Piratini, tomada de Arroio Grande por tropas de Gumercindo ou Aparício Saraiva e consequentemente o medo instaurado.
Politicamente nada mais a fazer no Governo de Estado e sua fratricida guerra federalista no governo de Julio de Castilhos, mas a revolta e a resistência por meio arbitrários perduraram até a virada dos anos de 1900. Desordem social, vândalos oportunistas, abandono e despreparo do sistema policial marcaram a curta resistência que Santa Isabel podia oferecer. Restaram, diluídas no tempo, raízes frágeis de sentimentos passados, mas o fundamental é a reconstrução da cidadania e que seus moradores tenham o orgulho em sentirem-se os novos agentes de uma mudança de valores. Entender sua riqueza histórica e promover novas relações de um mundo diferente e uma sociedade em profundas mutações são o grande desafio, afinal, um Patrimônio Cultural do Estado merece e pode muito mais.

Cledenir Mendonça
Historiador

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Teixeirinha - 25 anos de sua morte

            Teixeirinha -  O legado de Vitor Mateus Teixeira

A exibição de filmes na Vila da Quinta começou na década dos anos 20,  na Sociedade e Instrução (SIRQ) que naquele período estava arrendada para o Grupo dos 15?... sendo que o prédio do cinema ficou pronto em 1930 aqui  no distrito.  Os famosos bailes de carnaval e as apresentações do  Jazz Band Grupo dos 15?... com a fineza e o encanto do que havia de melhor da música clássica entre nós,  seus saraus e apresentações semanais, tendo como mediador a sensibilidade e a paixão musical de Severino Gonçalves Terra, proprietário da Estância Sotéia,  no Taim.
Passou o tempo e para nós, crianças e adolescentes no final dos anos 70, por vezes,   esquecemos dos primeiros passos do cinema e a parafernália instrumental do tempo distante, da incipiente energia elétrica, dos estúdios móveis em viagens interioranas nos vagões de trem, nos caminhos percorridos no lombo de uma mula ou dos apresentadores em Kombi nos telões pelo interior nos armazéns mais visitados pelos moradores locais. Era, embora tardiamente, a dinâmica da modernização, como um fluido ortocromático, poesia e sensibilidade que chegava aos arrabaldes da cidade com a exibição de filmes. Para termos uma ideia, no 3º distrito, Povo Novo, chegaram a funcionar dois cinemas e a última apresentação de filmes na Vila da Quinta foi em 1982.
Nestes 25 anos da morte de Teixeirinha, comecei a me lembrar dos filmes que um dia assistimos, recapitulando sim um pouco da arte cinematográfica para entender melhor, de como uma projeção restitui ao expectador os seus espantos ou neste caso a memória. Era de certa forma, uma linguagem metafórica, de intimidade rural que em muito nos ligava  aos seus filmes. Creio que não fizemos parte do circuito de lançamento, mas vibramos com o palhaço Pipiolo e  nos dramas e amarguras quando o cinema lotado exibia “Coração de luto” (1960), “Motorista sem limite” (1969) ou “Tropeiro Velho” (1979). Foram 12 filmes, dezenas de empregos e que por vezes raras ousadias técnicas, misturadas ao simplismo do sempre galã com sua eterna amada Meri Terezinha.
Teixeirinha cantou e compôs em torno de 1200 músicas tendo gravado 600. Falou de amor, de personalidades, cidades e suas lembranças, definido no excelente trabalho do historiador rio grandino Francisco Alcides Gougo Junior, em sua dissertação de Mestrado, “Canta meu povo: uma interpretação histórica sobre a produção musical de Teixeirinha (1959-1985)”  pela UFRGS em março deste ano, algo como ‘composições ufanistas’. Veja em 
( http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/24844/000745908.pdf?sequence=1)
Cantava para o homem simples, falava daquilo que aprendera na vida e de seus galanteios gaudérios. Seus versos em quadras, às vezes simplistas, relembrava o campo, a vida livre num momento de intensa migração da população rural para a cidade e, nas ondas da potente Farroupilha, Teixeirinha “amanhecia cantando” com seus ouvintes desde o Acre, Mato Grosso e Paraná.
Hoje regravam suas músicas ao delírio dos mais novos, gurizada de pilchas que nem o conheceram, e por vezes ”Tropeiro Velho” de 1972, ou “Querência Amada” de 1975 surgem ao coro de milhares de vozes da multimídia atual, como um refrão que já beira os 40 anos. Vitor Teixeira compôs e filmou nos anos de exceção politica, mas nem se avalia o grau de distanciamento ou a aproximação com os militares no poder. Mas não faz mal, não é crime e o velho Teixeira tem cacife para o perdão, assim como tem, ainda entre nós, velhos adoradores do  regime ditatorial  que hoje pintam de democráticos ferrenhos e estão faceiros na defesa intransigente da cúpula do poder municipal.

Entre nós, ficou a lembrança dos tempos do DAER onde trabalhou nos anos 50  antes da fama, quando participou  na abertura  da estrada rumo a Santa Vitória do Palmar. Fez amigos por aqui, brindou com  os trabalhadores  do trecho em dias de chuva os ensaios de seu violão. Muitas pessoas entre a Quinta e o Taim o lembram desse período.   Já famoso apresentou-se por duas vezes em circos que estavam na Vila e outra vez foi a Ilha do Leonidio com seu gaiteiro da época, Ademar Silva. Passou o tempo e é bom que a Academia esteja estudando Teixeirinha, descortinando a vida e a obra, releituras atualizadas no tempo e a importância do conjunto de seus trabalhos e quem sabe a obra do nosso Chico ajude a entender melhor um pouco da nossa história.
           

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Padres Josefinos e os alunos - Vila da Quinta- 1920

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Os Padres Josefinos e a Educação

Escola Agrícola Municipal da Quinta

Em 1914, a administração do município, através do Intendente Municipal, Dr. Nascimento, e o Bispo Diocesano de Pelotas, viabilizaram com a Congregação  São José de Murialdo, a fundação de uma escola agrícola em Rio Grande e o local apropriado foi a Vila da Quinta. Neste sentido, o objetivo era de auxiliar na educação das crianças pobres e, ao mesmo tempo investir no desenvolvimento da agricultura na região, marcada especificamente pelo grande latifúndio ou pequenas chácaras com uma concentração predominantemente de portugueses que se estabeleciam entre o Bosque, Carreiros, Quinta, Ilha Leonidio e Quitéria. Vale ressaltar que a igreja do Rio Grande pertencia a Diocese de Pelotas.
Seria uma proposta inovadora na área educacional e, provavelmente um projeto pioneiro pedagógico e religioso sob o controle dos padres Josefinos  com atuação no Brasil. A Ordem era de Turim,  na Itália, e os religiosos foram transferidos da Líbia (África) do Instituto Agrícola Industrial para a Vila da Quinta. No dia 5 de janeiro de 1915, chegaram os dois primeiros padres, começando assim a missão no Rio Grande do Sul, sendo eles o padre Oreste Trombem e Gioseppe Longo. Em fevereiro chegaria o padre Umberto Pagliane, superior encarregado da Escola, e o irmão Hermenegildo Guerrini.
No dia 21 de abril de 1915 foi inaugurada a Escola Agrícola, na sede do extinto Posto Zootécnico, em uma área de 14 hectares, sendo hoje assim compreendida: à frente seria onde está o Grêmio Esportivo Nacional e o Posto de Saúde e , ao fundo a Usina da asfalto.
Cultivavam mudas de arvores frutíferas, silvestres e ornamentais, quer para o consumo, embelezamento interno ou a venda de excedentes, as hortaliças, vagens ou legumes em geral, eram cultivados para as aulas práticas dos alunos ou experimentos e manejo técnico das culturas já então estabelecidas.
Começava as aulas com 10 alunos internados e, paralelamente, era ministrada a aula municipal para os alunos do sexo masculino, na qual os menores da Vila (externos) apreendiam os elementos fundamentais da língua portuguesa, aritimétrica, e noções variadas de agricultura, perfazendo um total de 50 alunos.
Como escola católica, o ensino tinha o propósito de educação cívica e religiosa, alicerçada na moral cristã, tendo como meta a formação do caráter do estudante. O programa abrangia seis anos de estudos, divididos em dois cursos; o preparatório e o de capatazes com 3 anos cada um. Nos primeiros três anos, era teoria, português, história do Brasil, caligrafia, desenho a mão, noções de física e química. Já no curso de capatazes, ampliava em muito os conceitos até então existentes da educação no meio rural. Dividia-se em módulos como a Teoria, que seriam as matérias curriculares, ensino Profissional, como conhecimentos de semeadura, colheita, podas, enxertos e experiências químicas/orgânicas, além de controle contábil de receitas e despesas e, o último módulo seria a Zootecnia e Industria, aprendendo sobre raças de animais, coberturas, tratamento profilático, imunização, vacinas e soros. Na indústria agrícola, os alunos “capatazes” tinham aula de enotologia, preparo dos vinhos, atafonas, lacticínios, álcool e cidras e os princípios da economia rural.
A educação passava por um refino estrutural jamais imaginado na região, abriam-se novos paradigmas, reorganiza-se, de certa forma, propostas e experiências de um mundo distante de nós, burilava o bruto presente e propunham no longo horizonte, novas perspectivas de um uma nova dimensão na arte da educação. Mais do que isto, as transformações no campo religioso, propõe um novo rumo evangelizador da igreja, onde a Paróquia da Quinta, criada em 1913, abrangia o Taim, Cassino, Povo Novo e Quinta. Não eram os termos que eram novos, mas a conceitualização de propostas centradas na fé e na ação do homem em relação ao seu meio. Criaram, o Apostolado da Oração e Associação da Doutrina Cristã (catecismo) e um núcleo da Boa Imprensa, que propagava leituras e as boas  publicações católicas editadas no país, sem contar um Jornal editado pelos padres locais, chamado “Mensageiro Cathólico”. Inovaram com as experiências advindas de outros locais, como “Fabrica da Matriz”, que cuidava dos bens da igreja e o “Primor da Caridade”, uma espécie de Pronto socorro físico, moral e religioso aos pobres e doentes  em suas residências.
O modelo e a experiência com os Josefinos durou somente 7 anos. Em 1922 rompe-se o contrato, expurga-se os religiosos e nunca mais tivemos práticas de tal porte na arte de educar em nossa região. Poucas vezes a Igreja teve um dinamismo real e concreto nesta difícil arte de pregar o   evangelho no nosso meio, mas ficaram os sonhos e projetos de uma educação inovadora entre nós. E nestes 95 anos da chegada dos padres Josefinos, a Banda Marcelino das Neves e seus instrumentos amarelos não mais se apresentam e nem mais o Grupo de Teatro Fiasco, com seus espetáculos dramáticos vão subir ao palco ou encantar os passageiros na Estação Férrea aos sábados na chegado ou partida dos trens.
Do antigo prédio de dois andares e um conglomerado de galpões e oficinas, resta somente uma parede de material esperando para tombar.

Bases de pesquisa:
Pagliane, Humberto. Escola Agrícola Municipal da Quinta. Relatório 1915/1920. Oficinas do Rio Grande.
 Maier, Paulo Souza. Visão Histórica da Realidade da Comunidade de Nossa Senhora da Penha, Vila da Quinta, UFPEL, mimiografado, s/d.
  Mendonça. Cledenir Vergara. Escolas Josefinos; Projetos, sonhos... que ficaram no passado. In Jornal Eco do Interior, 16/08/2005, ano 1, nº2, pg. 6

terça-feira, 5 de outubro de 2010

SIRQ – Uma instituição centenária

Sociedade Instrução e Recreio  Quinta
Parte 02 – 1950/2010

       Surgia o inicio da década de 1950 e com ela o movimento de futuras lideranças jovens no intuito de reerguerem a SIRQ, mas somente  em 26 de junho de 1952, em Assembleia Geral, definiu-se o papel da entidade para os novos tempos. A primeira campanha seria para reerguer uma nova sede social, já que a antiga estava em ruínas e foi demolida. A nova obra oferecia uma estrutura sólida e pensada sobre todos os aspectos da construção arquitetônica: água encanada, rede de esgotos e luz elétrica. A sede foi decorada e mobiliada  ao longo dos anos com móveis, louças, cristais, cortinas, mesas e cadeiras, estas vindas do Paraná.
Uma grande festa em 16 de outubro de 1954 inaugurava o atual prédio da Sociedade, abrindo o caminho para os novos tempos. Politicamente tudo se mantinha calmo, somente brigas e desafetos pessoais alteravam sua trajetória de conturbações administrativas. Obras de embelezamento, mesas e cadeiras de Gramado, a colocação do parquet, o forro em colmeia, caracterizando uma das melhores acústicas nos salões existentes, na cidade os jornais estampavam fotos das rainhas e noticias da ”Quinta” pelas mãos do escritor Décio Neves.
Pairavam recomendações em ofícios com um bem caríssimo como a eletrola e ainda havia a incerteza da utilidade de um aparelho chamado televisão e suas benesses para a coletividade social. Quando o antigo prédio de madeira do Lilia Neves incendiou, abrigou as aulas da escola até o prédio em construção ficar pronto,e teve um curso supletivo mantido com verbas do Ministério da Educação desde 1962.
Mantinha inabalavelmente, por tradição, suas exigências de conduta e respeito em seu interior, com exageros personalizados de uma sociedade em transição. Ainda são memoráveis os bailes entre 1960 e meados de 1970 que elegeram rainhas, princesas e garotas da primavera. A elite rural aos poucos se ausentou, pois já não tinha mais o prestigio e o poder de outrora. Passaram a vigorar os novos modelos sociais, nitidamente urbanos, no comando da Sociedade e mesmo com as modificações sociais em andamento, continuou sendo referência de uma classe detentora de prestígio social e poder, mostrando-se lenta para as transformações necessárias e visão de futuro, pouco contribuindo para a desmistificação de preconceitos raciais e sociais afinados ao longo de sua história. Sua influência politica continuava intocável, a Ala Feminina nos eventos sociais e carismáticos, principalmente entre 1968 e 1971, repartindo também seu espaço quando fundado o CTG Raphael Pinto Bandeira em 1968.
Com a chegada dos anos 80, mudanças radicais na estrutura social estavam acontecendo e a Sociedade arredia a elas. Pagar taxa de água e energia elétrica significava pesadelo aos tesoureiros. As crises de outros tempos batiam à porta. Recomeçavam as interrupções no funcionamento da Sociedade, parcerias simplistas, carnaval e pouca ousadia desmereceram o brilho da SIRQ.
Ficou centenária nos anos 90, adaptou-se aos novos conceitos da sociedade, virou um clube de interesses particularizados, sem o brilho de outros tempos. Aprendeu a ser mais democrática no uso de seu interior com as portas abertas à comunidade local, mas perdeu o encanto de sua história. Aos poucos desapareceram  suas referências do passado para recriar um novo modelo de ação, empobrecida pelo simplismo, mas sonhos vivos na imagem dos mais novos. O presente segue sem definição conceitual com outra geração reconstruindo um novo tempo.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

SIRQ – Uma instituição centenária


Sociedade Instrução e Recreio  Quinta
Parte 01- 1903/1950

A arte de ser centenária não deve ser expressa apenas como manifestação e valorização estética. Tal arte é antes de tudo uma atitude do homem em relação ao seu passado. A Sociedade e Recreio viu passar e embalou os sonhos dos homens que ajudaram a criar o 5º distrito em 1909, desmembrando-o do Povo Novo. Viveu os horrores de duas grandes guerras mundiais, sepultou sócios vitimados pela gripe espanhola de 1918 e foi testemunha de defesa das nossas revoluções internas, criando mitos e heróis de uma terra dominada pelos coronéis, mas sempre fora delicada e suave com a beleza de rainhas, princesas e misses que um dia desfilaram em sua sede. Quebrou o protocolo quando deixou os nãos sócios assistirem os jogos da Copa do Mundo de 1970 quando a Quinta só tinha um aparelho de televisão. Foi administrada pela prepotência dos velhos caudilhos políticos, mas também teve a doçura de um dia ser guiada somente por mulheres. Firmou-se assim, ao canto e desencanto de seu poder. Puniu e expurgou quem ousara transgredir seus códigos, mas agraciou e bajulou benfeitores conforme seus interesses.

Fundada em 8 de janeiro de 1903, teve suas atividades iniciais na casa do Capitão Abdon Salies e como o espaço da grande sala estava começando a ficar pequeno, Abdon dou o terreno para a construção da sede onde se encontra hoje. O primeiro salão ficou pronto em 1905, construída de madeira e as telhas eram de zinco. O estilo era colonial, amplo, as janelas em arco, e duas janelas da frente eram maiores e os vidros eram coloridos na parte superior, despontando como um dos mais belos prédios do nascente século 20 na pequena povoação à margem da linha férrea.
Até 1917, os bailes eram concorridíssimos e o espaço nobre era disputado pela elite rural. Quando ocorriam bailes de gala, havia, em horário especial, trem fretado de Rio Grande, exclusivamente para o transporte de senhoras e senhores que frequentavam a Sociedade.
A primeira crise surgiu 15 anos após sua fundação: em campo minado de atitudes prepotentes entre sócios e a diretoria, vieram à tona as primeiras deserções. Criava-se assim um salão independente, mas com o poder de barganha e arranjos políticos viria à pacificação. Concomitante a isso a gripe espanhola de 1918, que por aqui deixa suas vitimas e a 1ª Guerra Mundial, deixaram a SIRQ em compasso de espera.
Administrar a SIRQ e neutralizar diante de seus conflitos internos ao longo da sua história, nunca foi tarefa fácil, independente do sucesso e realização pessoal na vida privada. As crises vieram de longe, desde 1922 quando foram interrompidas as atividades da instituição e, repassou, em forma de arrendamento a sua sede para o Grupo dos 15”!!, período em que começava a exibição de filmes em seu interior. Com o protestos e reações de antigos sócios, se reorganizava a Sociedade  em 1926 com a formação de uma nova diretoria. Renovada e ambiciosas, oferece um curso primário e aulas noturnas para os adultos com verbas próprias da entidade. Neste período surge a caneta tinteiro, folheada a ouro, oferecida pelo professor  José Antonio Carneiro. Recebeu doações de livros e obras para sua biblioteca e intercedeu ao Poder Público Municipal para a criação de uma praça em frente à Estação Ferroviária, na época, terreno da antiga Escola Agrícola. A nossa primeira praça situava-se onde hoje fica o Posto de Saúde.
A Revolução de 1930 interromperia novamente as atividades sociais. A revolução que levaria Getulio Vargas ao poder, mexeria com os nossos caudilhos. Foi organizado um corpo de voluntários para combater em Rio Grande as tropas federais que resistiam ao golpe e no interior da Vila, havia homens armados para o combate. Homens como Marcelino Pereira das Neves e Augusto Nicola, formariam suas milícias para impor a ordem na cidade. A SIRQ ficaria fechada até terminarem as pressões políticas e outros atores em cena na politicagem local, novas picuinhas viriam pela frente, e persistiriam os mesmo traumas da inconsistência partidária.
Em 1934 surgiram dois blocos carnavalescos: “As Floristas” e “As Ciganas”. Nosso carnaval ganhava o brilho  e a rivalidade entre os dois blocos e com eles a luxúria, beleza, competitividade e misturados a tudo isto, uma batalha em suas entranhas: a invocação politica. As Floristas nasceram na SIRQ e as Ciganas, renegadas que ousaram criar um espaço só para elas no já existente cinema, que oferecia bailes no carnaval. Cores, gritos, segredos na época de Momo, mas em cada espaço, uma pitada da politica reinante: na Sirq, o conservadorismo do PSD e no Cine !5, o populismo do PTB.
Sob a alegação da 2ª Guerra Mundial, corroborada pelo desinteresse coletivo local e pelas ações pertinentes a politica nacional com a ditadura getulista, a Sociedade permaneceu fechada de 1939 a 1948, tentando se organizar em 1949. Os resultados foram efêmeros. Desleixo e falhas administrativas deixaram a Sociedade fechada por mais de 13 anos. O brilho do enorme salão, já com seus 30 anos, virou entulho. O assoalho apresentava buracos, parte das madeiras das paredes estava despregada e havia goteiras por todos os cantos. Era a exposição do triste abandono.

Cledenir Vergara Mendonça – Esp. em História.
Fonte: Entrevistas e técnicas em História Oral (Sebastião Zeferino
Amaral, Plácido Barroco, Marcolino Brancão, José Gonzales)
Arquivo José Ferreira Junior, Carlos Salies Camargo e Décio
Neves
Livros de Atas, ano de 1928, 1952, 1985


segunda-feira, 13 de setembro de 2010

A Igreja de Nossa Senhora das Necessidades

     História - Povo Novo    

      Em um primeiro momento, se faz necessária a contextualização histórica do período na qual surge a Igreja do Povo Novo. Sua essência da ação catequizadora na região está demarcada sob dois pontos fundamentais: O povoado de pequenos lavradores portugueses surge durante a invasão espanhola no Rio Grande de São Pedro entre 1763 a 1776 e o assentamento estava localizado à margem da Estrada Real da Palma, onde os espanhóis colocaram parte dos colonos portugueses que não conseguiram retirar-se ante a invasão. Carreiros, Paulista e Mangueira foram os outros núcleos para assentarem portugueses sem condições de fuga ou por escolha, decidiram permanecer em Rio Grande. Fortes também realça essa possibilidade, afirmando “[...] que em conseqüência da invasão alguns teriam ficado em suas terras na vila do Rio Grande; outros fugiram para Santa Catarina e que a maior parte teria acompanhado o governador Elói de Madureira em seu êxodo para Viamão”
      Assim sendo o núcleo da Torutama, que já existia anteriormente, a Fazenda Real na ilha da Torutama, recebeu a maior parte das famílias portuguesas, formando o Pueblo Nuevo del Torutama nas terras pertencentes a Manoel Fernandes Vieira, que se retirou durante o domínio espanhol.
     Quando da restauração das terras portuguesas, o antigo proprietário retoma a sua área, originárias estas das primeiras doações de sesmarias na região, as 112 famílias de lavradores e criadores são transferidos para o Rincão d’El Rey, a área hoje compreendida pelo atual distrito. Desenhava-se assim um novo processo de firmação fundiária e social quanto ao domínio português pós- tratado de Santo Idelfonso de 1776, ao menos nesta região.
     Com a mudança, no ano de 1777, “[...] mais tarde alguns destes portugueses e outras famílias foram habitar o novo lugar duas léguas distantes, e aí edificaram uma casa para celebrar missa [...] ”
     Regularizou-se a posse terra a moradores que possuíam títulos e animais – eram 91 – e também os que não tinham a posse de terra durante a invasão, somando 47 proprietários , mas não fora uma ação imediata este processo de estabilização. Miséria, caos e indefinições marcaram o período de estruturação da povoado, quando somente em 1785 os proprietários regularizaram suas propriedades com doações de terras pela Coroa Portuguesa. As datas de terra prometidas (1 data=272hectares) viraram para a maioria pequenas áreas que raramente ultrapassavam os 10 hectares, verdadeiros minifúndios com assentamentos demorados e quando instalados as pressões por parte dos latifundiários, também com doações de sesmaria ((equivalente a 13.000 hectares), “fizeram-nos e, não por exceção, abandonar terras ou pagar pelas que legalmente lhe pertenciam por doação governamental. ”
     Por Provisão Eclesiástica de 07/02/1785, cria-se a Capela Curada de Nossa Senhora das Necessidades do Povo Novo, tendo como capelão o Padre Manoel dos Santos Rezende, nomeado em 05/12/1785.
     Os Livros de assento de Batismo, livres ou de escravos, de Casamento e Óbitos começam em 1792 e estão na Mitra Diocesana em Rio Grande. Em 1795 foi elevada a Curato dependente da Matriz do Rio Grande, a Igreja de São Pedro. Por lei da Assembléia Provincial de 06/05/1846, lei nº 35, Povo Novo é elevado a Paróquia, criando assim a Freguesia do Povo Novo. Estivera pregando no local o padre jesuíta Tiago Villarupia e o primeiro pároco nomeado foi em abril de 1847, Raimundo Tarrago .
      Nesse sentido é importante citar o único padre colado, o padre Estevão de Semiglia, nomeado em 27/10/1856, sendo apresentado por decreto do governo em 25/02/1865 e confirmada canonicamente a 4/3/1865 por D. Sebastião Dias Laranjeira, que criara a Vara Eclesiástica em junho de 1863, segundo Rupert, que acompanhou a trajetória da presença de vigários encomendados na Igreja até o surgimento da República.
     O desenvolvimento viria em um primeiro ciclo com a cultura do trigo. Assim ficou demarcado a opulência econômica no final da década de 1780 com o plantio de 7.472 hectares de trigo no Povo Novo a sua retração da cultura nos campos a partir das primeiras décadas dos anos oitocentos. Aos poucos a produção de bois para as charqueadas em Pelotas e culturas de subsistência voltadas para o abastecimento da Vila do Rio Grande, identificavam igualmente o modelo produtivo característico desenvolvido pela Província desaparecendo a produção em larga escala da cultura. Assim desenvolvia a Freguesia. Negros cativos em uma população equivalente a 40% do universo de moradores, açorianos e seus descendentes e os grandes proprietários de terras, formariam um mosaico cultural e social muito mais próximos da exuberante Pelotas do que Rio Grande.
     Em 12/12/1913, a capela deixou de ser a sede da Paróquia, sendo esta transferida pelo Bispo de Pelotas para a Igreja de Nossa Senhora da Penha, no nascente distrito de Julio de Castilhos, hoje Vila da Quinta.
   Quanto às reformas solicitadas, e isto não significa inserções arquitetônica no mesmo período, cita-se na ata da Câmara Municipal do Rio Grande em 13/02/1856, que a Igreja precisava ser reformada, pois o “telhado estava arriado, imagens defeituosas e precisando de 5 banquetas completas para os 5 altares” e a reclamação que os 6 contos de réis decretados pela Assembléia Provincial ainda não havia chegado. Já no ano de 1878, forma-se uma comissão na povoação para novos melhoramentos na Igreja das Necessidades. È bem provável que pequenas obras tenham sido feitas, o que no trabalho desenvolvido não é pesquisado, no começo do século XX, mas efetivamente o que se tem de noticias é do ano de 1958 quando ocorre o tombamento lateral e a cobertura, menos a fachada, sendo reconstruída a Igreja, obedecendo, segundo entrevistas com antigos moradores, o mesmo estilo e tipificação arquitetônica.

Bibliografia

Manoel H. de Couto e Rey - Carta Coreográfica que compreende a Barra de Rio Grande de S. Pedro e terrenos que medeiam entre a Freguesia do Estreito, o arroio de Taim e Campos de Piratini. Cópia - Centro de Documentação Histórica – FURG.



QUEIROZ. Maria Bertulinne. A Vila do Rio Grande de São Pedro 1737 -1822. Rio Grande: FURG, 1987


FORTES. João Borges. Os casais açorianos: presença lusa na formação do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Martins Livreiro, 3ª edição, 1999. P. 98


DIAS LOPES. Pe. Acediago Vicente Zeferino. Notas sobre a história eclesiástica no Rio Grande do Sul – 1737-1891- p. 97/98. Arquivo Cúria Metropolitana – Porto Alegre


Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul – Registro de Sesmarias - Livro 1/2/3


COPSTEIN. Raphael. O Trigo no continente de São Pedro. IN: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, nº 132, Porto Alegre, 1998. p. 29 a 92


RUPERT. Arlindo. História da Igreja no Rio Grande do Sul. EST Editora. Vol.III – Curatos do tempo colonial que se tornaram paróquias, p. 69/70


COPSTEIN. Raphael. O Trigo no continente de São Pedro. IN: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, nº 132, Porto Alegre, 1998. p. 62


Mappa de Listas de Família: 1.328 livres, 19 libertos, 719 escravos – Ano de 1858 – Igreja Nossa Senhora das Necessidades – AHGRS.


Primeiro Lustro da Diocese de Pelotas. 1911- 1916. Cúria Diocessana - Pelotas