Radio Fusion

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Quanto vale uma fotografia

No tempo da diligência

As fotografias são imagens congeladas no tempo? Em que sentido elas são documentos históricos? Poderia interpretar um passado através de velhas fotografias mal cuidadas?
            Minha continua busca, solitária e independente, de resgatar nossas memórias ruralizadas  tem no conceito de  Boris Kossoy em seu trabalho “Fotografia e História”, lançado pela Ateliê Editorial, em definir qual o valor, o alcance e os limites das fotografias enquanto meios de conhecimento da cena passada, buscando assim entender nas imagens, sua natureza de um fragmento e registro documental, portador de várias significações. Em síntese, pode dizer tudo ou não definir nada. Assim a fotografia entrou na era das imagens e avanços da tecnologia na qual se propunha os antecessores  dos velhos daguerreótipos, uma fotografia que eternizasse o tempo, propondo conceitos e questionamentos de um olhar do passado.
            Do ponto de vista da História, a fotografia antiga reflete um tempo não vivido, a sensação de um tempo que nos escapou, não vivenciado, e por vezes tutor de emoções de entendimento e entre o passado e o presente. Talvez seja assim com as fotos da família que jamais serão as mesmas, pois faltará alguém no próximo encontro. A fotografia também nos joga na rua das mágoas e saudades, memória e informação, analise, processos e contingências de acordo com o objeto que estudamos, mas jamais imparcial. Henri Cartier Bresson define estas experiências algo como instantes decisivos, ou seja, o momento entre a cena e o momento do registro para tornar-se um tempo alongado.
            Pegamos a diligência que fazia a linha Vila da Quinta – Santa Vitória do Palmar nos    fins dos anos de 1890 da Empresa de transportes de Quintino Machado e Manuel Cunha. Viajamos no tempo, um cenário desconhecido e caminhos imaginários, ainda mais quando comparamos com o tempo de 2 horas de hoje com o modesto 7 dias daqueles tempos para percorrer o trajeto. Mas têm coisas que a fotografia não diz. Podemos ter todo o contingente teórico para analise, mas vai faltar o sentimento não explicito do real. Podemos ter o vestuário, o rosto, a imagem cognitiva, o tipo de papel, a construção ou como diria Roberto Frank, seria o momento que o fotógrafo revela o equilíbrio e surpreende a realidade desprevenida.
Então a viagem começa. Como era longo o percurso, havia os “paradouros”, pequenas acolhidas que às vezes no pernoite viravam hotéis de campanha. Havia as trocas de parelhas das mulas, refeições, banhos e entregas das correspondências entre os 200 quilômetros a percorrer. Havia as cheias da Lagoa Mirim em uma poção de terras planas, sem declives acentuados em sua extensão e ampliados ao longo horizonte, um olhar indagativo quanto à possibilidade de transitar de um modo seguro. As areias se perpetuaram a milhares de anos, anulam o trânsito na temporada da seca, mas castigam a circulação quando a chuva mergulha nos verdes dos campos, formando lagos solitário e rumos incertos. O cocheiro, guia da diligência, e o sino anunciavam no desbravar da campanha a esperança perdida na imensidão do pampa como a sensação do silêncio como um dia teve Auguste de Saint-Hilaire na sua viagem ao Rio Grande do Sul em 1821.
            Assim é a fotografia. Um ponto de interrogação, ruptura que abandona o modo memorialístico, saudosista para tornar-se tentação de sonhos visuais e indagações provocativas do tempo presente onde as diligências nem existem mais.

A janela da alma - e das estações de transbordo

A “Janela da Alma” e das estações de transbordo

Um belo documentário, assinado por João Jardim e Walter Carvalho, “Janela da Alma” trás um tema interessante quanto o que podemos entender sobre a deficiência visual e suas relações estabelecidas no modo de viver das pessoas. Eles entrevistaram artistas, intelectuais e pessoas ditas comuns da Europa e do Brasil. Recorreram à filosofia, à medicina, à biologia, a música e a literatura para investigar o que é a visão ou a magia do olhar humano. Vários depoimentos de personagens com deficiência visuais ligados à área cultural, como Hermeto Pascoal, Eugen Bavcar, fotógrafo e filósofo, as cineastas Marjut Rimminem e Agnés Varda e o depoimento de José Saramago. Saramago comenta sobre o que se entende por cegueira ou das coisas que não queremos enxergar. O Romeu que fala a História se tivesse o primor dos olhos de um falcão ou de uma águia, não se apaixonaria pela bela Julieta. Uma pele que não seria agradável de ver, pois olhos da águia e do falcão veem muito além da capacidade do olhar humano tornando-a, provavelmente, uma mulher feia.
Assim ainda é a questão das mudanças no transporte coletivo na cidade. A propaganda, sempre com o perfil de “grandes inovações” cita a cidade pioneira na integração entre as linhas de ônibus. Mas a pergunta que não se discutiu é se realmente a cidade precisava deste modelo de gestão?  Alternativas foram discutidas? Fica novamente a insistência da Prefeitura de leituras desconexas em relação ao “modus operandis”, solitária em seu gueto de ‘fortes ações’, mas em constantes desgastes pela incapacidade de diálogo.
            As estações de transbordos não são de todo um mal, mas faltou propor um relacionamento democrático até então justificáveis pela inabilidade de lidar com proposições afirmativas de uma cidade em constantes mudanças.
            As reações adversas e seus manifestos, explicações e justificativas também na esfera judicial, mas o que ainda não se ouviu nada sobre as benesses dos custos operacionais que as empresas foram beneficiadas ou alguém duvida que a diminuição de linhas e horários houvesse uma economia básica com a redução de mão de obra, equipamentos e insumos? Mas a mudança vai melhorar a vida de quem mesmo? Algumas incoerências continuam sem a resposta. Talvez cada cidadão afetado tenha sua discórdia, mas retomo a um ponto essencial. A linha Quinta-Cassino funcionou por duas temporadas e desde o ano passado foi suprimida. Alega-se prejuízo, mesmo passando pelo P. Marinha e o P. São Pedro. Esperamos então eternos minutos na Estação Trevo para sempre, a trabalho ou a passeio, seguirmos a trajetória em pé nos corredores da linha Cassino. E também tem que ter o cartão. Sem ele, democraticamente, somos obrigados a pagar 2 passagens, sem o direito do transbordo.
As metáforas e o encanto poético de Saramago vão mais além, propõem que Deus não fez nossos olhos para ver a realidade, pois se assim fosse, estaríamos perdidos. Nossos olhos veem coisas, nem de mais nem de menos, mas um olhar mais atento do espaço que nos cerca não é alentador, é uma janela do desencanto, tempo enfadonho das incertezas.
             

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A Villa de Santa Isabel dos Canudos - 1882 -1893

A dignidade de um povo – 1882-1893
                O Vilamento

Este artigo busca referenciar os 11 anos de emancipação politica de Santa Isabel do Sul e, de certa forma, sintetizá-la no plano histórico do Brasil Meridional, analisando a sua importância na construção histórica da povoação à margem do São Gonçalo. Em meados do século 19, as charqueadas em pleno desenvolvimento, criação pastoril abundante e o escravismo como mola propulsora do desenvolvimento econômico e social, fazendo florescer nos centros urbanos e ruralizados, as novas elites agrárias de pensamento liberal. Neste sentido, reconstituir os aspectos sociais de Santa Isabel, é construir uma nova visão que abarca desde os seus valores econômicos, sua dinâmica social, produtivas e culturais. Já as limitações documentais impuseram constantes avaliações e seguir pistas da tradição oral, fruto, portanto da cultura espontânea das pessoas que moram ou moraram em Santa Isabel, foi, às vezes, caminho indispensável. Foram horas de conversas, anotações e a percepção de um orgulho latente de todos eles. Assim a velha Santa Isabel ressurge, reconstituindo o passado e projetando um futuro melhor com um relacionamento responsável entre a cidade mãe, Arroio Grande, e o atual distrito.
Com o aldeamento formado a partir dos anos de 1850 calcado principalmente em dois pilares básicos: a charqueada e a escravidão, Santa Isabel vislumbrava na sua estrutura portuária, uma potencialidade básica de desenvolvimento e exportação de suas riquezas. Mais dos isto, era porta de entrada e saídas de produtos, portal do contrabando institucionalizado do Prata, direcionando murmúrios e fervilhando ideias e sopros de ventos liberais, que tinham suas origens desde os tempos dos farroupilhas com seu Posto Fiscal em frente a Vila. Criava-se uma Vila, nascia uma utopia nas áreas “doadas pelo Cap. José Correia Mirapalheta em terrenos de sua propriedade” em 1859. Nesta época, em 1858, a população de Santa Isabel, ainda distrito do Arroio Grande, tinha 860 homens livres, 44 libertos e 1.144 escravos. Mas nem tudo foi silêncio como se imagina. Houve insurreições, resistência e sublevações ao trabalho forçado e fugas do mundo senhorial na Vila ou nas suas extensas fazendas, desde a Formosa até a Pedra Só. Fatos isolados e ainda pouco estudados como os atos de protestos a servidão silenciosa é que lentamente vai se analisando, contidos estes nas antigas experiências vividas no período da escravatura na região entre o Chasqueiro e o Piratini.
Murmúrios na costa portuária, movimentos da Marinha Mercante em defesa de Jaguarão diante da possibilidade da invasão dos blancos de Aguirre, os vapores e suas paragens obrigatórias antes de singrarem a Mirim, e por esses lados, não há uma repetição monótona do cotidiano. Circulam ideias, jornais, folhetos subversivos, negros alforriados, miseráveis, pencas concorridíssimas e bailes das oligarquias charqueiras. Ao mesmo tempo crescem as queixas contra o descaso da administração do Arroio Grande e a criação de um novo município se torna inquestionável. Por lei Provincial nº 1.368, em 09/05/1882, é criado o município de Santa Isabel dos Canudos.
Mas duraram pouco os festejos e o orgulho isabelense. Arroio Grande não se contentaria em perder em média 30 % de suas rendas e 60 % de seu território. Era um inimigo que agia nas trincheiras e interesses corporativos, mas enquanto o embate final não chegava o novo município se estruturava nos segmentos da saúde, educação, acessos e rendas municipais, oriundas dos impostos taxados das exportações de gado, das olarias, caieiras, casas de comércios e arrematações dos passos dos Canudos, Orqueta e Maria Gomes. Quando as águas começam a ameaçar a Vila em 1889, idealizam uma represa para proteger o povoado, sugerem a uma espécie de imposto predial, cobram tributos das charqueadas de Pelotas que tendiam a monopolizar o comércio. Santa Isabel tinha pressa e os entraves burocráticos continuavam atrelados ao Arroio Grande que insistia em revogar a lei da Assembleia que criava o município.

O desvilamento

Novos e fortes rumores circulavam na povoação. Arroio Grande não queria reanexar Santa Isabel, mas sim, o desejo de retomar uma parte territorial que abrangia a região das pedreiras de calcário e as enormes quantidades de pedras, onde mais tarde seria a Matarazzo. Em nada valeria o esforço e as contínuas queixas à Presidência da Província. Em 1890, é anexada a área em litígio. Estava a partir daquele momento decretada a falência do município. Arrastou-se por mais dois anos vivendo de rendas ínfimas e soterradas em convulsões sociais. As águas já não são mais ordeiras dos tempos passados agora invadem, assustam e já não duram de 3 a 4 dias como antes, mas semanas de preocupações e improdutividade no coração administrativo do município. Sucumbe definitivamente em 16/01/1893.
Voltava a ser distrito e seus antigos prédios da administração ficaram vazios. Não haveria mais decisões importantes a serem tomadas, nem debates ou projetos de desenvolvimento da localidade e, seriam todos, do Piratini ao Chasqueiro, submissos a vontade do Arroio Grande. Pouco importava a miséria do empobrecido municipio e suas baixas arrecadações nos últimos anos, pois a ira voltava-se sempre para o Arroio Grande. Listas de baixos assinados, brigas, violência tomavam as ruas e lugares públicos. Manifestações de orgulho e inconformidade pela anexação contagiavam políticos, os poucos que ainda ficaram na Vila e moradores mais exaltados. Mas tudo era silêncio em Arroio Grande e pela lógica, nem fora dele a obra de engenharia da reanexação, mas  sim do governo republicano que, no processo de reorganização territorial e administrativo do Estado, logo após instaurada a República, criava, restaurava ou extinguia municípios no Rio Grande do Sul, onde Santa Isabel, caracterizada pela sua rebeldia dos tempos passados, punia- se pela lógica financeira e interesses partidarizados.
A Revolução Federalista (1893-1895) aqui na região contribuiu em muito para a edificação do caos em Santa Isabel pós-supressão do município. Incapacitados de reprimir as manifestações revolucionárias, as forças policiais são presas fáceis e instrumentos de ações ineficazes. Invasões nos trilhos da Estação Piratini, tomada de Arroio Grande por tropas de Gumercindo ou Aparício Saraiva e consequentemente o medo instaurado.
Politicamente nada mais a fazer no Governo de Estado e sua fratricida guerra federalista no governo de Julio de Castilhos, mas a revolta e a resistência por meio arbitrários perduraram até a virada dos anos de 1900. Desordem social, vândalos oportunistas, abandono e despreparo do sistema policial marcaram a curta resistência que Santa Isabel podia oferecer. Restaram, diluídas no tempo, raízes frágeis de sentimentos passados, mas o fundamental é a reconstrução da cidadania e que seus moradores tenham o orgulho em sentirem-se os novos agentes de uma mudança de valores. Entender sua riqueza histórica e promover novas relações de um mundo diferente e uma sociedade em profundas mutações são o grande desafio, afinal, um Patrimônio Cultural do Estado merece e pode muito mais.

Cledenir Mendonça
Historiador

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Teixeirinha - 25 anos de sua morte

            Teixeirinha -  O legado de Vitor Mateus Teixeira

A exibição de filmes na Vila da Quinta começou na década dos anos 20,  na Sociedade e Instrução (SIRQ) que naquele período estava arrendada para o Grupo dos 15?... sendo que o prédio do cinema ficou pronto em 1930 aqui  no distrito.  Os famosos bailes de carnaval e as apresentações do  Jazz Band Grupo dos 15?... com a fineza e o encanto do que havia de melhor da música clássica entre nós,  seus saraus e apresentações semanais, tendo como mediador a sensibilidade e a paixão musical de Severino Gonçalves Terra, proprietário da Estância Sotéia,  no Taim.
Passou o tempo e para nós, crianças e adolescentes no final dos anos 70, por vezes,   esquecemos dos primeiros passos do cinema e a parafernália instrumental do tempo distante, da incipiente energia elétrica, dos estúdios móveis em viagens interioranas nos vagões de trem, nos caminhos percorridos no lombo de uma mula ou dos apresentadores em Kombi nos telões pelo interior nos armazéns mais visitados pelos moradores locais. Era, embora tardiamente, a dinâmica da modernização, como um fluido ortocromático, poesia e sensibilidade que chegava aos arrabaldes da cidade com a exibição de filmes. Para termos uma ideia, no 3º distrito, Povo Novo, chegaram a funcionar dois cinemas e a última apresentação de filmes na Vila da Quinta foi em 1982.
Nestes 25 anos da morte de Teixeirinha, comecei a me lembrar dos filmes que um dia assistimos, recapitulando sim um pouco da arte cinematográfica para entender melhor, de como uma projeção restitui ao expectador os seus espantos ou neste caso a memória. Era de certa forma, uma linguagem metafórica, de intimidade rural que em muito nos ligava  aos seus filmes. Creio que não fizemos parte do circuito de lançamento, mas vibramos com o palhaço Pipiolo e  nos dramas e amarguras quando o cinema lotado exibia “Coração de luto” (1960), “Motorista sem limite” (1969) ou “Tropeiro Velho” (1979). Foram 12 filmes, dezenas de empregos e que por vezes raras ousadias técnicas, misturadas ao simplismo do sempre galã com sua eterna amada Meri Terezinha.
Teixeirinha cantou e compôs em torno de 1200 músicas tendo gravado 600. Falou de amor, de personalidades, cidades e suas lembranças, definido no excelente trabalho do historiador rio grandino Francisco Alcides Gougo Junior, em sua dissertação de Mestrado, “Canta meu povo: uma interpretação histórica sobre a produção musical de Teixeirinha (1959-1985)”  pela UFRGS em março deste ano, algo como ‘composições ufanistas’. Veja em 
( http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/24844/000745908.pdf?sequence=1)
Cantava para o homem simples, falava daquilo que aprendera na vida e de seus galanteios gaudérios. Seus versos em quadras, às vezes simplistas, relembrava o campo, a vida livre num momento de intensa migração da população rural para a cidade e, nas ondas da potente Farroupilha, Teixeirinha “amanhecia cantando” com seus ouvintes desde o Acre, Mato Grosso e Paraná.
Hoje regravam suas músicas ao delírio dos mais novos, gurizada de pilchas que nem o conheceram, e por vezes ”Tropeiro Velho” de 1972, ou “Querência Amada” de 1975 surgem ao coro de milhares de vozes da multimídia atual, como um refrão que já beira os 40 anos. Vitor Teixeira compôs e filmou nos anos de exceção politica, mas nem se avalia o grau de distanciamento ou a aproximação com os militares no poder. Mas não faz mal, não é crime e o velho Teixeira tem cacife para o perdão, assim como tem, ainda entre nós, velhos adoradores do  regime ditatorial  que hoje pintam de democráticos ferrenhos e estão faceiros na defesa intransigente da cúpula do poder municipal.

Entre nós, ficou a lembrança dos tempos do DAER onde trabalhou nos anos 50  antes da fama, quando participou  na abertura  da estrada rumo a Santa Vitória do Palmar. Fez amigos por aqui, brindou com  os trabalhadores  do trecho em dias de chuva os ensaios de seu violão. Muitas pessoas entre a Quinta e o Taim o lembram desse período.   Já famoso apresentou-se por duas vezes em circos que estavam na Vila e outra vez foi a Ilha do Leonidio com seu gaiteiro da época, Ademar Silva. Passou o tempo e é bom que a Academia esteja estudando Teixeirinha, descortinando a vida e a obra, releituras atualizadas no tempo e a importância do conjunto de seus trabalhos e quem sabe a obra do nosso Chico ajude a entender melhor um pouco da nossa história.
           

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Padres Josefinos e os alunos - Vila da Quinta- 1920

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Os Padres Josefinos e a Educação

Escola Agrícola Municipal da Quinta

Em 1914, a administração do município, através do Intendente Municipal, Dr. Nascimento, e o Bispo Diocesano de Pelotas, viabilizaram com a Congregação  São José de Murialdo, a fundação de uma escola agrícola em Rio Grande e o local apropriado foi a Vila da Quinta. Neste sentido, o objetivo era de auxiliar na educação das crianças pobres e, ao mesmo tempo investir no desenvolvimento da agricultura na região, marcada especificamente pelo grande latifúndio ou pequenas chácaras com uma concentração predominantemente de portugueses que se estabeleciam entre o Bosque, Carreiros, Quinta, Ilha Leonidio e Quitéria. Vale ressaltar que a igreja do Rio Grande pertencia a Diocese de Pelotas.
Seria uma proposta inovadora na área educacional e, provavelmente um projeto pioneiro pedagógico e religioso sob o controle dos padres Josefinos  com atuação no Brasil. A Ordem era de Turim,  na Itália, e os religiosos foram transferidos da Líbia (África) do Instituto Agrícola Industrial para a Vila da Quinta. No dia 5 de janeiro de 1915, chegaram os dois primeiros padres, começando assim a missão no Rio Grande do Sul, sendo eles o padre Oreste Trombem e Gioseppe Longo. Em fevereiro chegaria o padre Umberto Pagliane, superior encarregado da Escola, e o irmão Hermenegildo Guerrini.
No dia 21 de abril de 1915 foi inaugurada a Escola Agrícola, na sede do extinto Posto Zootécnico, em uma área de 14 hectares, sendo hoje assim compreendida: à frente seria onde está o Grêmio Esportivo Nacional e o Posto de Saúde e , ao fundo a Usina da asfalto.
Cultivavam mudas de arvores frutíferas, silvestres e ornamentais, quer para o consumo, embelezamento interno ou a venda de excedentes, as hortaliças, vagens ou legumes em geral, eram cultivados para as aulas práticas dos alunos ou experimentos e manejo técnico das culturas já então estabelecidas.
Começava as aulas com 10 alunos internados e, paralelamente, era ministrada a aula municipal para os alunos do sexo masculino, na qual os menores da Vila (externos) apreendiam os elementos fundamentais da língua portuguesa, aritimétrica, e noções variadas de agricultura, perfazendo um total de 50 alunos.
Como escola católica, o ensino tinha o propósito de educação cívica e religiosa, alicerçada na moral cristã, tendo como meta a formação do caráter do estudante. O programa abrangia seis anos de estudos, divididos em dois cursos; o preparatório e o de capatazes com 3 anos cada um. Nos primeiros três anos, era teoria, português, história do Brasil, caligrafia, desenho a mão, noções de física e química. Já no curso de capatazes, ampliava em muito os conceitos até então existentes da educação no meio rural. Dividia-se em módulos como a Teoria, que seriam as matérias curriculares, ensino Profissional, como conhecimentos de semeadura, colheita, podas, enxertos e experiências químicas/orgânicas, além de controle contábil de receitas e despesas e, o último módulo seria a Zootecnia e Industria, aprendendo sobre raças de animais, coberturas, tratamento profilático, imunização, vacinas e soros. Na indústria agrícola, os alunos “capatazes” tinham aula de enotologia, preparo dos vinhos, atafonas, lacticínios, álcool e cidras e os princípios da economia rural.
A educação passava por um refino estrutural jamais imaginado na região, abriam-se novos paradigmas, reorganiza-se, de certa forma, propostas e experiências de um mundo distante de nós, burilava o bruto presente e propunham no longo horizonte, novas perspectivas de um uma nova dimensão na arte da educação. Mais do que isto, as transformações no campo religioso, propõe um novo rumo evangelizador da igreja, onde a Paróquia da Quinta, criada em 1913, abrangia o Taim, Cassino, Povo Novo e Quinta. Não eram os termos que eram novos, mas a conceitualização de propostas centradas na fé e na ação do homem em relação ao seu meio. Criaram, o Apostolado da Oração e Associação da Doutrina Cristã (catecismo) e um núcleo da Boa Imprensa, que propagava leituras e as boas  publicações católicas editadas no país, sem contar um Jornal editado pelos padres locais, chamado “Mensageiro Cathólico”. Inovaram com as experiências advindas de outros locais, como “Fabrica da Matriz”, que cuidava dos bens da igreja e o “Primor da Caridade”, uma espécie de Pronto socorro físico, moral e religioso aos pobres e doentes  em suas residências.
O modelo e a experiência com os Josefinos durou somente 7 anos. Em 1922 rompe-se o contrato, expurga-se os religiosos e nunca mais tivemos práticas de tal porte na arte de educar em nossa região. Poucas vezes a Igreja teve um dinamismo real e concreto nesta difícil arte de pregar o   evangelho no nosso meio, mas ficaram os sonhos e projetos de uma educação inovadora entre nós. E nestes 95 anos da chegada dos padres Josefinos, a Banda Marcelino das Neves e seus instrumentos amarelos não mais se apresentam e nem mais o Grupo de Teatro Fiasco, com seus espetáculos dramáticos vão subir ao palco ou encantar os passageiros na Estação Férrea aos sábados na chegado ou partida dos trens.
Do antigo prédio de dois andares e um conglomerado de galpões e oficinas, resta somente uma parede de material esperando para tombar.

Bases de pesquisa:
Pagliane, Humberto. Escola Agrícola Municipal da Quinta. Relatório 1915/1920. Oficinas do Rio Grande.
 Maier, Paulo Souza. Visão Histórica da Realidade da Comunidade de Nossa Senhora da Penha, Vila da Quinta, UFPEL, mimiografado, s/d.
  Mendonça. Cledenir Vergara. Escolas Josefinos; Projetos, sonhos... que ficaram no passado. In Jornal Eco do Interior, 16/08/2005, ano 1, nº2, pg. 6

terça-feira, 5 de outubro de 2010

SIRQ – Uma instituição centenária

Sociedade Instrução e Recreio  Quinta
Parte 02 – 1950/2010

       Surgia o inicio da década de 1950 e com ela o movimento de futuras lideranças jovens no intuito de reerguerem a SIRQ, mas somente  em 26 de junho de 1952, em Assembleia Geral, definiu-se o papel da entidade para os novos tempos. A primeira campanha seria para reerguer uma nova sede social, já que a antiga estava em ruínas e foi demolida. A nova obra oferecia uma estrutura sólida e pensada sobre todos os aspectos da construção arquitetônica: água encanada, rede de esgotos e luz elétrica. A sede foi decorada e mobiliada  ao longo dos anos com móveis, louças, cristais, cortinas, mesas e cadeiras, estas vindas do Paraná.
Uma grande festa em 16 de outubro de 1954 inaugurava o atual prédio da Sociedade, abrindo o caminho para os novos tempos. Politicamente tudo se mantinha calmo, somente brigas e desafetos pessoais alteravam sua trajetória de conturbações administrativas. Obras de embelezamento, mesas e cadeiras de Gramado, a colocação do parquet, o forro em colmeia, caracterizando uma das melhores acústicas nos salões existentes, na cidade os jornais estampavam fotos das rainhas e noticias da ”Quinta” pelas mãos do escritor Décio Neves.
Pairavam recomendações em ofícios com um bem caríssimo como a eletrola e ainda havia a incerteza da utilidade de um aparelho chamado televisão e suas benesses para a coletividade social. Quando o antigo prédio de madeira do Lilia Neves incendiou, abrigou as aulas da escola até o prédio em construção ficar pronto,e teve um curso supletivo mantido com verbas do Ministério da Educação desde 1962.
Mantinha inabalavelmente, por tradição, suas exigências de conduta e respeito em seu interior, com exageros personalizados de uma sociedade em transição. Ainda são memoráveis os bailes entre 1960 e meados de 1970 que elegeram rainhas, princesas e garotas da primavera. A elite rural aos poucos se ausentou, pois já não tinha mais o prestigio e o poder de outrora. Passaram a vigorar os novos modelos sociais, nitidamente urbanos, no comando da Sociedade e mesmo com as modificações sociais em andamento, continuou sendo referência de uma classe detentora de prestígio social e poder, mostrando-se lenta para as transformações necessárias e visão de futuro, pouco contribuindo para a desmistificação de preconceitos raciais e sociais afinados ao longo de sua história. Sua influência politica continuava intocável, a Ala Feminina nos eventos sociais e carismáticos, principalmente entre 1968 e 1971, repartindo também seu espaço quando fundado o CTG Raphael Pinto Bandeira em 1968.
Com a chegada dos anos 80, mudanças radicais na estrutura social estavam acontecendo e a Sociedade arredia a elas. Pagar taxa de água e energia elétrica significava pesadelo aos tesoureiros. As crises de outros tempos batiam à porta. Recomeçavam as interrupções no funcionamento da Sociedade, parcerias simplistas, carnaval e pouca ousadia desmereceram o brilho da SIRQ.
Ficou centenária nos anos 90, adaptou-se aos novos conceitos da sociedade, virou um clube de interesses particularizados, sem o brilho de outros tempos. Aprendeu a ser mais democrática no uso de seu interior com as portas abertas à comunidade local, mas perdeu o encanto de sua história. Aos poucos desapareceram  suas referências do passado para recriar um novo modelo de ação, empobrecida pelo simplismo, mas sonhos vivos na imagem dos mais novos. O presente segue sem definição conceitual com outra geração reconstruindo um novo tempo.