Radio Fusion

domingo, 6 de março de 2011

A História das Coisas

   A História das Coisas 

       é um documentário de 20 minutos, que vai direto ao ponto: como colaboramos diariamente pra destruir o planeta. Mostra passo a passo a cadeia de eventos que vai da exploração dos recursos naturais, passando pelo produto manufaturado, a compra e o descarte, até chegar ao lixão. Mas o diferencial aqui é que não é um documentário no estilo BBC ou National Geographic. É explicado com desenhos (toscamente) animados, e numa linguagem simples (sem ser simplista) que se torna interessante e compreensível até para crianças pequenas. E o melhor: é dublado!

http://www.youtube.com/watch?v=lgmTfPzLl4E&NR=1

Biblioteca digital mundial da unesco

       
NOTÍCIA DO LANÇAMENTO NA INTERNET DA WDL, A BIBLIOTECA DIGITAL MUNDIAL DA UNESCO.
Já está disponível na Internet, através do site www.wdl.org

     Reúne mapas, textos, fotos, gravações e filmes de todos os tempos e explica em sete idiomas as jóias e relíquias culturais de todas as bibliotecas do planeta.
     Tem, sobretudo, caráter patrimonial" , antecipou em LA NACION Abdelaziz Abid, coordenador do projecto impulsionado pela UNESCO e outras 32 instituições. A BDM não oferecerá documentos correntes, a não ser "com valor de patrimônio, que permitirão apreciar e conhecer melhor as culturas do mundo em idiomas diferentes:árabe, chinês, inglês, francês, russo, espanhol e português. Mas há documentos em linha em mais de 50 idiomas".

     Entre os documentos mais antigos há alguns códices precolombianos, graças à contribuição do México, e os primeiros mapas da América, desenhados por Diego Gutiérrez para o rei de Espanha em 1562", explicou Abid.
    Os tesouros incluem o Hyakumanto darani , um documento em japonês publicado no ano 764 e considerado o primeiro texto impresso da história; um relato dos azetecas que constitui a primeira menção do Menino Jesus no Novo Mundo; trabalhos de cientistas árabes desvelando o mistério da álgebra; ossos utilizados como oráculos e esteiras chinesas; a Bíblia de Gutenberg; antigas fotos latino-americanas da Biblioteca Nacional do Brasil e a célebre Bíblia do Diabo, do século XIII, da Biblioteca Nacional da Suécia.

Fácil de navegar:

   Cada jóia da cultura universal aparece acompanhada de uma breve explicação do seu conteúdo e seu significado. Os documentos foram passados por scanners e incorporados no seu idioma original, mas as explicações aparecem em sete línguas, entre elas O PORTUGUÊS. A biblioteca começa com 1200 documentos, mas foi pensada para receber um número ilimitado de textos, gravados, mapas, fotografias e ilustrações.

    Como se acede ao sítio global?

    Embora seja apresentado oficialmente na sede da UNESCO, em Paris, a Biblioteca Digital Mundial já está disponível na Internet, através do sítio:

www.wdl.org

     O acesso é gratuito e os usuários podem ingressar directamente pela Web , sem necessidade de se registrarem.
     Permite ao internauta orientar a sua busca por épocas, zonas geográficas, tipo de documento e instituição. O sistema propõe as explicações em sete idiomas (árabe, chinês, inglês, francês, russo, espanhol e português), embora os originas existam na sua língua original.
    Desse modo, é possível, por exemplo, estudar em detalhe o Evangelho de São Mateus traduzido em aleutiano pelo missionário russo Ioann Veniamiov, em 1840. Com um simples clique, podem-se passar as páginas um livro, aproximar ou afastar os textos e movê-los em todos os sentidos. A excelente definição das imagens permite uma leitura cômoda e minuciosa.
     Entre as jóias que contem no momento a BDM está a Declaração de Independência dos Estados Unidos, assim como as Constituições de numerosos países; um texto japonês do século XVI considerado a primeira impressão da história; o jornal de um estudioso veneziano que acompanhou Fernão de Magalhães na sua viagem ao redor do mundo; o original das "Fábulas" de La Fontaine, o primeiro livro publicado nas Filipinas em espanhol e tagalog, a Bíblia de Gutemberg, e umas pinturas rupestres africanas que datam de 8.000 A.C.

     Duas regiões do mundo estão particularmente bem representadas:
    América Latina e Médio Oriente. Isso deve-se à activa participação da Biblioteca Nacional do Brasil, à biblioteca de Alexandria no Egipto e à Universidade Rei Abdulá da Arábia Saudita.
    A estrutura da BDM foi decalcada do projecto de digitalização da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, que começou em 1991 e atualmente contém 11 milhões de documentos em linha.
    Os seus responsáveis afirmam que a BDM está sobretudo destinada a investigadores, professores e alunos. Mas a importância que reveste esse sítio vai muito além da incitação ao estudo das novas gerações que vivem num mundo audio-visual.

Fonte: GEHG

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Kiriku e a Feiticeira. E as promessas politicas

   
                             Kiriku, a Feiticeira e a mentirologia

                Um filme surpreendente assinado por Michel Ocelot, “Kiriku e a Feiticeira”, bem que poderia ser lembrado quando o assunto fosse sobre a cultura afro-brasileira ou a temática sobre a consciência negra.  Trata de uma lenda africana recontada aos encantos do premiado desenho animado no qual Kiriku, um menino minúsculo e seu dom especial, nasce em uma aldeia e vem ao mundo para livrar seu povo da opressão da temível feiticeira Karabá. O desenho viaja com o pequeno herói em diversas situações do mundo místico das lendas africanas para salvar seu povo das mãos da feiticeira. Kiriku tem tudo de um pequeno herói: dócil, curioso, inteligente, meigo e não sabe mentir.
                Foi por isso que me lembrei deste filme, por causa do verbo mentir. Ele é transitivo direto, mas, indiretamente me aguçou a memória. Foi há dois anos no debate entre os vices à Prefeitura do Rio Grande, no Povo Novo, e foi questionado  aos candidatos a situação precária das estradas interioranas. Ficava a promessa que até o fim do ano, segundo o candidato Adnelson Troca, hoje vice-prefeito, que as máquinas e o saibro estariam na Estrada da Palma, isto em 2009, e era promessa do- prefeito- Branco- primo.
                Pois bem. Semana passada percorri a estrada e não vi nenhum melhoramento. Nada. E não é uma estrada qualquer. Seus traçados básicos já estavam delimitados no mapa de Canno y Olmilla desde os anos de 1776. Os antigos caminhos e ocupações indígenas  e que depois serviram de rota aos tropeiros que vinham do sul em direção as charqueadas pelotenses no século 19, continuam mal cuidados. O primeiro e único saibro colocado já ultrapassou 30 anos e pouca coisa mudou. Acesso vicinal que liga o Taim ao Povo Novo carece de melhor planejamento, estudos de rota alternativa aos sabores  do nosso interior, mas o que vemos?
                Na campanha eleitoral, sabemos, valem as promessas vazias, contínuos engodos, farsas já ultrapassadas, mas na efetivação dos cargos postulados, porque esse marasmo? Tem que ter ousadia e conhecimento. Recordo então Kiriku que foi atrás do sábio nos altos da montanha sagrada se aconselhar e descobrir o segredo para vencer a malvada feiticeira Karabá. No fim do filme, o sábio reafirma que o nosso herói não mente, mas e nós, cidade real, com essa mentirologia reinante, o que fazer?
                As ilusões perderam-se ao longo do tempo na soberba e senilidade de projetos reformadores. Nem uma estrada histórica com seus 230 anos nossos gestores conseguem enxergar. Nestes caminhos circulam nossos produtos primários como o leite, o arroz, a cebola, a produção de gado, mas falta circular o conhecimento, alternativas de rendas sustentáveis, rota de turismo rural, apoio a agricultura familiar e fixação do homem no campo, políticas públicas e boa vontade. Falta transparência e verdades.
 Kiriku é uma obra que vai além da magia das lendas da África Ocidental. Indicado para crianças e adultos, mas o tema recorrente é a inspiração que precisamos fazer algo.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Quanto vale uma fotografia

No tempo da diligência

As fotografias são imagens congeladas no tempo? Em que sentido elas são documentos históricos? Poderia interpretar um passado através de velhas fotografias mal cuidadas?
            Minha continua busca, solitária e independente, de resgatar nossas memórias ruralizadas  tem no conceito de  Boris Kossoy em seu trabalho “Fotografia e História”, lançado pela Ateliê Editorial, em definir qual o valor, o alcance e os limites das fotografias enquanto meios de conhecimento da cena passada, buscando assim entender nas imagens, sua natureza de um fragmento e registro documental, portador de várias significações. Em síntese, pode dizer tudo ou não definir nada. Assim a fotografia entrou na era das imagens e avanços da tecnologia na qual se propunha os antecessores  dos velhos daguerreótipos, uma fotografia que eternizasse o tempo, propondo conceitos e questionamentos de um olhar do passado.
            Do ponto de vista da História, a fotografia antiga reflete um tempo não vivido, a sensação de um tempo que nos escapou, não vivenciado, e por vezes tutor de emoções de entendimento e entre o passado e o presente. Talvez seja assim com as fotos da família que jamais serão as mesmas, pois faltará alguém no próximo encontro. A fotografia também nos joga na rua das mágoas e saudades, memória e informação, analise, processos e contingências de acordo com o objeto que estudamos, mas jamais imparcial. Henri Cartier Bresson define estas experiências algo como instantes decisivos, ou seja, o momento entre a cena e o momento do registro para tornar-se um tempo alongado.
            Pegamos a diligência que fazia a linha Vila da Quinta – Santa Vitória do Palmar nos    fins dos anos de 1890 da Empresa de transportes de Quintino Machado e Manuel Cunha. Viajamos no tempo, um cenário desconhecido e caminhos imaginários, ainda mais quando comparamos com o tempo de 2 horas de hoje com o modesto 7 dias daqueles tempos para percorrer o trajeto. Mas têm coisas que a fotografia não diz. Podemos ter todo o contingente teórico para analise, mas vai faltar o sentimento não explicito do real. Podemos ter o vestuário, o rosto, a imagem cognitiva, o tipo de papel, a construção ou como diria Roberto Frank, seria o momento que o fotógrafo revela o equilíbrio e surpreende a realidade desprevenida.
Então a viagem começa. Como era longo o percurso, havia os “paradouros”, pequenas acolhidas que às vezes no pernoite viravam hotéis de campanha. Havia as trocas de parelhas das mulas, refeições, banhos e entregas das correspondências entre os 200 quilômetros a percorrer. Havia as cheias da Lagoa Mirim em uma poção de terras planas, sem declives acentuados em sua extensão e ampliados ao longo horizonte, um olhar indagativo quanto à possibilidade de transitar de um modo seguro. As areias se perpetuaram a milhares de anos, anulam o trânsito na temporada da seca, mas castigam a circulação quando a chuva mergulha nos verdes dos campos, formando lagos solitário e rumos incertos. O cocheiro, guia da diligência, e o sino anunciavam no desbravar da campanha a esperança perdida na imensidão do pampa como a sensação do silêncio como um dia teve Auguste de Saint-Hilaire na sua viagem ao Rio Grande do Sul em 1821.
            Assim é a fotografia. Um ponto de interrogação, ruptura que abandona o modo memorialístico, saudosista para tornar-se tentação de sonhos visuais e indagações provocativas do tempo presente onde as diligências nem existem mais.

A janela da alma - e das estações de transbordo

A “Janela da Alma” e das estações de transbordo

Um belo documentário, assinado por João Jardim e Walter Carvalho, “Janela da Alma” trás um tema interessante quanto o que podemos entender sobre a deficiência visual e suas relações estabelecidas no modo de viver das pessoas. Eles entrevistaram artistas, intelectuais e pessoas ditas comuns da Europa e do Brasil. Recorreram à filosofia, à medicina, à biologia, a música e a literatura para investigar o que é a visão ou a magia do olhar humano. Vários depoimentos de personagens com deficiência visuais ligados à área cultural, como Hermeto Pascoal, Eugen Bavcar, fotógrafo e filósofo, as cineastas Marjut Rimminem e Agnés Varda e o depoimento de José Saramago. Saramago comenta sobre o que se entende por cegueira ou das coisas que não queremos enxergar. O Romeu que fala a História se tivesse o primor dos olhos de um falcão ou de uma águia, não se apaixonaria pela bela Julieta. Uma pele que não seria agradável de ver, pois olhos da águia e do falcão veem muito além da capacidade do olhar humano tornando-a, provavelmente, uma mulher feia.
Assim ainda é a questão das mudanças no transporte coletivo na cidade. A propaganda, sempre com o perfil de “grandes inovações” cita a cidade pioneira na integração entre as linhas de ônibus. Mas a pergunta que não se discutiu é se realmente a cidade precisava deste modelo de gestão?  Alternativas foram discutidas? Fica novamente a insistência da Prefeitura de leituras desconexas em relação ao “modus operandis”, solitária em seu gueto de ‘fortes ações’, mas em constantes desgastes pela incapacidade de diálogo.
            As estações de transbordos não são de todo um mal, mas faltou propor um relacionamento democrático até então justificáveis pela inabilidade de lidar com proposições afirmativas de uma cidade em constantes mudanças.
            As reações adversas e seus manifestos, explicações e justificativas também na esfera judicial, mas o que ainda não se ouviu nada sobre as benesses dos custos operacionais que as empresas foram beneficiadas ou alguém duvida que a diminuição de linhas e horários houvesse uma economia básica com a redução de mão de obra, equipamentos e insumos? Mas a mudança vai melhorar a vida de quem mesmo? Algumas incoerências continuam sem a resposta. Talvez cada cidadão afetado tenha sua discórdia, mas retomo a um ponto essencial. A linha Quinta-Cassino funcionou por duas temporadas e desde o ano passado foi suprimida. Alega-se prejuízo, mesmo passando pelo P. Marinha e o P. São Pedro. Esperamos então eternos minutos na Estação Trevo para sempre, a trabalho ou a passeio, seguirmos a trajetória em pé nos corredores da linha Cassino. E também tem que ter o cartão. Sem ele, democraticamente, somos obrigados a pagar 2 passagens, sem o direito do transbordo.
As metáforas e o encanto poético de Saramago vão mais além, propõem que Deus não fez nossos olhos para ver a realidade, pois se assim fosse, estaríamos perdidos. Nossos olhos veem coisas, nem de mais nem de menos, mas um olhar mais atento do espaço que nos cerca não é alentador, é uma janela do desencanto, tempo enfadonho das incertezas.
             

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A Villa de Santa Isabel dos Canudos - 1882 -1893

A dignidade de um povo – 1882-1893
                O Vilamento

Este artigo busca referenciar os 11 anos de emancipação politica de Santa Isabel do Sul e, de certa forma, sintetizá-la no plano histórico do Brasil Meridional, analisando a sua importância na construção histórica da povoação à margem do São Gonçalo. Em meados do século 19, as charqueadas em pleno desenvolvimento, criação pastoril abundante e o escravismo como mola propulsora do desenvolvimento econômico e social, fazendo florescer nos centros urbanos e ruralizados, as novas elites agrárias de pensamento liberal. Neste sentido, reconstituir os aspectos sociais de Santa Isabel, é construir uma nova visão que abarca desde os seus valores econômicos, sua dinâmica social, produtivas e culturais. Já as limitações documentais impuseram constantes avaliações e seguir pistas da tradição oral, fruto, portanto da cultura espontânea das pessoas que moram ou moraram em Santa Isabel, foi, às vezes, caminho indispensável. Foram horas de conversas, anotações e a percepção de um orgulho latente de todos eles. Assim a velha Santa Isabel ressurge, reconstituindo o passado e projetando um futuro melhor com um relacionamento responsável entre a cidade mãe, Arroio Grande, e o atual distrito.
Com o aldeamento formado a partir dos anos de 1850 calcado principalmente em dois pilares básicos: a charqueada e a escravidão, Santa Isabel vislumbrava na sua estrutura portuária, uma potencialidade básica de desenvolvimento e exportação de suas riquezas. Mais dos isto, era porta de entrada e saídas de produtos, portal do contrabando institucionalizado do Prata, direcionando murmúrios e fervilhando ideias e sopros de ventos liberais, que tinham suas origens desde os tempos dos farroupilhas com seu Posto Fiscal em frente a Vila. Criava-se uma Vila, nascia uma utopia nas áreas “doadas pelo Cap. José Correia Mirapalheta em terrenos de sua propriedade” em 1859. Nesta época, em 1858, a população de Santa Isabel, ainda distrito do Arroio Grande, tinha 860 homens livres, 44 libertos e 1.144 escravos. Mas nem tudo foi silêncio como se imagina. Houve insurreições, resistência e sublevações ao trabalho forçado e fugas do mundo senhorial na Vila ou nas suas extensas fazendas, desde a Formosa até a Pedra Só. Fatos isolados e ainda pouco estudados como os atos de protestos a servidão silenciosa é que lentamente vai se analisando, contidos estes nas antigas experiências vividas no período da escravatura na região entre o Chasqueiro e o Piratini.
Murmúrios na costa portuária, movimentos da Marinha Mercante em defesa de Jaguarão diante da possibilidade da invasão dos blancos de Aguirre, os vapores e suas paragens obrigatórias antes de singrarem a Mirim, e por esses lados, não há uma repetição monótona do cotidiano. Circulam ideias, jornais, folhetos subversivos, negros alforriados, miseráveis, pencas concorridíssimas e bailes das oligarquias charqueiras. Ao mesmo tempo crescem as queixas contra o descaso da administração do Arroio Grande e a criação de um novo município se torna inquestionável. Por lei Provincial nº 1.368, em 09/05/1882, é criado o município de Santa Isabel dos Canudos.
Mas duraram pouco os festejos e o orgulho isabelense. Arroio Grande não se contentaria em perder em média 30 % de suas rendas e 60 % de seu território. Era um inimigo que agia nas trincheiras e interesses corporativos, mas enquanto o embate final não chegava o novo município se estruturava nos segmentos da saúde, educação, acessos e rendas municipais, oriundas dos impostos taxados das exportações de gado, das olarias, caieiras, casas de comércios e arrematações dos passos dos Canudos, Orqueta e Maria Gomes. Quando as águas começam a ameaçar a Vila em 1889, idealizam uma represa para proteger o povoado, sugerem a uma espécie de imposto predial, cobram tributos das charqueadas de Pelotas que tendiam a monopolizar o comércio. Santa Isabel tinha pressa e os entraves burocráticos continuavam atrelados ao Arroio Grande que insistia em revogar a lei da Assembleia que criava o município.

O desvilamento

Novos e fortes rumores circulavam na povoação. Arroio Grande não queria reanexar Santa Isabel, mas sim, o desejo de retomar uma parte territorial que abrangia a região das pedreiras de calcário e as enormes quantidades de pedras, onde mais tarde seria a Matarazzo. Em nada valeria o esforço e as contínuas queixas à Presidência da Província. Em 1890, é anexada a área em litígio. Estava a partir daquele momento decretada a falência do município. Arrastou-se por mais dois anos vivendo de rendas ínfimas e soterradas em convulsões sociais. As águas já não são mais ordeiras dos tempos passados agora invadem, assustam e já não duram de 3 a 4 dias como antes, mas semanas de preocupações e improdutividade no coração administrativo do município. Sucumbe definitivamente em 16/01/1893.
Voltava a ser distrito e seus antigos prédios da administração ficaram vazios. Não haveria mais decisões importantes a serem tomadas, nem debates ou projetos de desenvolvimento da localidade e, seriam todos, do Piratini ao Chasqueiro, submissos a vontade do Arroio Grande. Pouco importava a miséria do empobrecido municipio e suas baixas arrecadações nos últimos anos, pois a ira voltava-se sempre para o Arroio Grande. Listas de baixos assinados, brigas, violência tomavam as ruas e lugares públicos. Manifestações de orgulho e inconformidade pela anexação contagiavam políticos, os poucos que ainda ficaram na Vila e moradores mais exaltados. Mas tudo era silêncio em Arroio Grande e pela lógica, nem fora dele a obra de engenharia da reanexação, mas  sim do governo republicano que, no processo de reorganização territorial e administrativo do Estado, logo após instaurada a República, criava, restaurava ou extinguia municípios no Rio Grande do Sul, onde Santa Isabel, caracterizada pela sua rebeldia dos tempos passados, punia- se pela lógica financeira e interesses partidarizados.
A Revolução Federalista (1893-1895) aqui na região contribuiu em muito para a edificação do caos em Santa Isabel pós-supressão do município. Incapacitados de reprimir as manifestações revolucionárias, as forças policiais são presas fáceis e instrumentos de ações ineficazes. Invasões nos trilhos da Estação Piratini, tomada de Arroio Grande por tropas de Gumercindo ou Aparício Saraiva e consequentemente o medo instaurado.
Politicamente nada mais a fazer no Governo de Estado e sua fratricida guerra federalista no governo de Julio de Castilhos, mas a revolta e a resistência por meio arbitrários perduraram até a virada dos anos de 1900. Desordem social, vândalos oportunistas, abandono e despreparo do sistema policial marcaram a curta resistência que Santa Isabel podia oferecer. Restaram, diluídas no tempo, raízes frágeis de sentimentos passados, mas o fundamental é a reconstrução da cidadania e que seus moradores tenham o orgulho em sentirem-se os novos agentes de uma mudança de valores. Entender sua riqueza histórica e promover novas relações de um mundo diferente e uma sociedade em profundas mutações são o grande desafio, afinal, um Patrimônio Cultural do Estado merece e pode muito mais.

Cledenir Mendonça
Historiador

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Teixeirinha - 25 anos de sua morte

            Teixeirinha -  O legado de Vitor Mateus Teixeira

A exibição de filmes na Vila da Quinta começou na década dos anos 20,  na Sociedade e Instrução (SIRQ) que naquele período estava arrendada para o Grupo dos 15?... sendo que o prédio do cinema ficou pronto em 1930 aqui  no distrito.  Os famosos bailes de carnaval e as apresentações do  Jazz Band Grupo dos 15?... com a fineza e o encanto do que havia de melhor da música clássica entre nós,  seus saraus e apresentações semanais, tendo como mediador a sensibilidade e a paixão musical de Severino Gonçalves Terra, proprietário da Estância Sotéia,  no Taim.
Passou o tempo e para nós, crianças e adolescentes no final dos anos 70, por vezes,   esquecemos dos primeiros passos do cinema e a parafernália instrumental do tempo distante, da incipiente energia elétrica, dos estúdios móveis em viagens interioranas nos vagões de trem, nos caminhos percorridos no lombo de uma mula ou dos apresentadores em Kombi nos telões pelo interior nos armazéns mais visitados pelos moradores locais. Era, embora tardiamente, a dinâmica da modernização, como um fluido ortocromático, poesia e sensibilidade que chegava aos arrabaldes da cidade com a exibição de filmes. Para termos uma ideia, no 3º distrito, Povo Novo, chegaram a funcionar dois cinemas e a última apresentação de filmes na Vila da Quinta foi em 1982.
Nestes 25 anos da morte de Teixeirinha, comecei a me lembrar dos filmes que um dia assistimos, recapitulando sim um pouco da arte cinematográfica para entender melhor, de como uma projeção restitui ao expectador os seus espantos ou neste caso a memória. Era de certa forma, uma linguagem metafórica, de intimidade rural que em muito nos ligava  aos seus filmes. Creio que não fizemos parte do circuito de lançamento, mas vibramos com o palhaço Pipiolo e  nos dramas e amarguras quando o cinema lotado exibia “Coração de luto” (1960), “Motorista sem limite” (1969) ou “Tropeiro Velho” (1979). Foram 12 filmes, dezenas de empregos e que por vezes raras ousadias técnicas, misturadas ao simplismo do sempre galã com sua eterna amada Meri Terezinha.
Teixeirinha cantou e compôs em torno de 1200 músicas tendo gravado 600. Falou de amor, de personalidades, cidades e suas lembranças, definido no excelente trabalho do historiador rio grandino Francisco Alcides Gougo Junior, em sua dissertação de Mestrado, “Canta meu povo: uma interpretação histórica sobre a produção musical de Teixeirinha (1959-1985)”  pela UFRGS em março deste ano, algo como ‘composições ufanistas’. Veja em 
( http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/24844/000745908.pdf?sequence=1)
Cantava para o homem simples, falava daquilo que aprendera na vida e de seus galanteios gaudérios. Seus versos em quadras, às vezes simplistas, relembrava o campo, a vida livre num momento de intensa migração da população rural para a cidade e, nas ondas da potente Farroupilha, Teixeirinha “amanhecia cantando” com seus ouvintes desde o Acre, Mato Grosso e Paraná.
Hoje regravam suas músicas ao delírio dos mais novos, gurizada de pilchas que nem o conheceram, e por vezes ”Tropeiro Velho” de 1972, ou “Querência Amada” de 1975 surgem ao coro de milhares de vozes da multimídia atual, como um refrão que já beira os 40 anos. Vitor Teixeira compôs e filmou nos anos de exceção politica, mas nem se avalia o grau de distanciamento ou a aproximação com os militares no poder. Mas não faz mal, não é crime e o velho Teixeira tem cacife para o perdão, assim como tem, ainda entre nós, velhos adoradores do  regime ditatorial  que hoje pintam de democráticos ferrenhos e estão faceiros na defesa intransigente da cúpula do poder municipal.

Entre nós, ficou a lembrança dos tempos do DAER onde trabalhou nos anos 50  antes da fama, quando participou  na abertura  da estrada rumo a Santa Vitória do Palmar. Fez amigos por aqui, brindou com  os trabalhadores  do trecho em dias de chuva os ensaios de seu violão. Muitas pessoas entre a Quinta e o Taim o lembram desse período.   Já famoso apresentou-se por duas vezes em circos que estavam na Vila e outra vez foi a Ilha do Leonidio com seu gaiteiro da época, Ademar Silva. Passou o tempo e é bom que a Academia esteja estudando Teixeirinha, descortinando a vida e a obra, releituras atualizadas no tempo e a importância do conjunto de seus trabalhos e quem sabe a obra do nosso Chico ajude a entender melhor um pouco da nossa história.